Salão de beleza ©
Categoria: Música

Vivo perdendo tempo. No entanto, o que me move é a pressa, a sensação de que não tenho tempo a perder. Para cortar o cabelo, por exemplo, só com hora marcada e sempre no mesmo salão. Da Silva é o cabeleireiro que me atende, embora no salão haja outros dois. Um deles, por sinal, é o Sr. Antônio Vicente, que calculo seja o dono. É um senhor de seus sessenta e poucos anos cujo rosto trai um certo cansaço do ofício de vida inteira. Sem abrir mão de algum bom humor, não é incomum que ele desfie algumas rabugens, próprias da idade e do cansaço. Tudo muito compreensível. O Sr. Antônio está, agora, com um problema na visão e não pode atender muitos clientes. Vale a pena contar uma cena engraçada envolvendo ele, uma mãe e uma filha. Quem ia cortar o cabelo era a filha de uns 9 anos e de farta e volumosa cabeleira. A mãe, zelosa, deu instruções não muito precisas ao Sr. Antônio. Diga-se que o Sr. Antônio é um hair designer com participação em evento de haute coiffure ocorrido em Paris, lá pelos anos 70, conforme atesta um certificado devidamente emoldurado na parede. Trata-se de profissional zeloso de sua reputação. Diante da imprecisão da mãe, o Sr. Antônio resolve propor a solução de corte que ele considera a única indicada para o problema que afligia a mãe: o volume do cabelo da filha. Mãe e filha se entreolham, inseguras. Para tranqüilizá-las, o Sr. Antônio procura numa revista uma ilustração aproximada do corte que pretende fazer. Mãe e filha se entreolham novamente. Nem a mãe nem a filha parecem aprovar a solução. Com o talento de hair designer posto em dúvida, é visível a contrariedade do Sr. Antônio. Mas a mãe é uma mulher delicada, fala de um jeito que não diminui o acerto da escolha do Sr. Antônio, antes destaca o conservadorismo dela, a mãe. O Sr. Antônio segue contrariado. E eu na cadeira ao lado assistindo a tudo com o enternecimento que as ocorrências miúdas provocam em mim. Por fim, o Sr. Antônio, não sem certa contrariedade, admite cortar o cabelo da garota conforme as orientações da mãe. Resignado, alega que se mãe e filha não estavam seguras, era melhor seguir-lhes a vontade, ainda que, a seu juízo, estivessem abrindo mão da solução perfeita por ele proposta. Nessa altura, o Da Silva, a quem não dou o menor trabalho – nenhuma novidade no corte, cabelo nada volumoso –, já havia terminado meu corte. Confesso que fiquei curioso do corte que o Sr. Antônio não pôde fazer.

© Nota de canapé: Uma canção do Zeca Baleiro.


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    Edna Freitass
    29 de março de 2012

    Ser flâneur dá nisso. Em todo e qualquer lugar… vê-se algo pronto. Pronto pra contar e (en)cantar.


    Tarlei
    30 de março de 2012

    Querida Edna,
    não perco ocasião de apanhar do chão do cotidiano esses acontecimentos miúdos. Que bom que gostou!
    Abs,
    Tarlei






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