Vidas secas ©
Categoria: Literatura

(PSiu: Hoje é aniversário da morte de Graciliano Ramos)

“Gracias a la vida / que me ha dado tanto”, tanto que todo agradecimento será pouco! Lembro de ter lido em Fernando Sabino algo assim: “A vida não dá tudo, mas dá muito. Tudo o que poderia ter sido, foi.” Na minha vida, tudo o que pôde ser, é. E eu agradeço. Digo isso a propósito de um documentário que vi há algum tempo. O filme (Garapa, do diretor José Padilha) acompanha trinta dias nas “vidas secas” e miseráveis de três famílias nos arredores de Fortaleza. Saí do cinema com a alma despedaçada. A garapa do título, que nós conhecemos como caldo de cana, é a água adoçada com que as mães tentam enganar a fome das crianças quando não se tem nada para comer. Um dos pais, com 28 anos de “vida”, dá este testemunho, que choca por trazer uma verdade sabida para o âmbito das verdades expostas a seco: até aquela idade ele não sabia o que era merendar (café da manhã), almoçar e jantar num mesmo dia. O pior de tudo não é testemunhar tanta miséria. É não enxergar uma saída imediata para tamanha desumanidade. Para essas famílias falta tudo e sobra desolação. É um desarranjo só. Guardei os nomes das três mães, lutadoras combalidas na batalha diária contra a fome: Rosa, Rosineide e Lúcia. Dessas três mães, a Lúcia me pareceu a mais sofrida. Quem olhará por essa gente, meu Deus?

© Nota de canapé: Livro que é um clássico do mais seco dos nossos prosadores, o grande Graciliano Ramos. Para João Cabral, poeta mineral, Graciliano falava “com as mesmas vinte palavras / Girando ao redor do sol / Que as limpa do que não é faca”.


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