Desacordo ortográfico ©
Categoria: Literatura

(PSiu: Hoje é aniversário da morte do filólogo Antônio Houaiss)

Ajudado por uma outrora excelente memória visual, nunca me foi difícil a assimilação da grafia correta das palavras. Ainda assim, é certo que cometi e venho cometendo inúmeros lapsos ortográficos. Com o apoio da última reforma ortográfica e de uma memória em plena descida de ladeira, os lapsos vêm-se multiplicando. Fosse em tempos outros, eu estaria aferrado às novas regras. Hoje, não. Não me incomoda a prática de um certo desacordo ortográfico. Os usuários somos os donos da língua. Não concordo com algumas mudanças trazidas pela reforma, entre elas a eliminação do trema. Para essa e outras mudanças advoga-se que a nova ortografia não interfere na pronúncia. Ah, tá! Isso vale para os utentes (expressão usada pelo filólogo Antônio Houaiss, um defensor da reforma) já escolarizados e familiarizados com o manejo da língua escrita. Para quem está se alfabetizando é um complicador. Como ensinar que se escreve “cinquenta” mas se pronuncia “cinqüenta”? E como ensinar que se escreve “esquenta” e não se pronuncia “esqüenta”? Eis um grande problema. Tremo ao pensar. Mesma coisa para a eliminação, por exemplo, do acento em “ideia”. Como ensinar que não se diz “idêia” mas “idéia”? E como ensinar que não se diz “baléia” mas “balêia”? Perco o assento ao pensar. Isso é só o que me ocorre de imediato. Reconheço que há muitíssimos casos de assimetria entre grafia e pronúncia. É normal. Não é normal, ou não é bem-vinda, uma reforma que promova o aumento dessas assimetrias.

Como dono da língua que sou, tenho feito uma salada ortográfica a meu bel-prazer – do que deve resultar um manual de tortografia para uso próprio.

© Nota de canapé: Antologia organizada por Reginaldo Pujol Filho.


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    Natália
    15 de maio de 2014

    “Mesma coisa para a eliminação, por exemplo, do acento em “ideia”. Como ensinar que não se diz “idêia” mas “idéia”? ” Tá explicado! rs






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