Auto-engano ©
Categoria: Literatura

A desmemória é um campo aberto para o desfile das re-repetições. Não me incomodo de me repetir por escrito. Tudo muda de figura quando se trata de uma conversa presencial. Ai, nada pior do que vislumbrar no semblante do interlocutor claros indícios de que você está se repetindo! Horrível! Não estou a salvo desse vexame. Mais que isso: desmemoriado como ando, devo ter incidido nele um par de vezes. Dia desses passei por ligeiro constrangimento. Um colega de trabalho veio elogiar-me pela frase que tinha escrito no seu cartão de aniversário. Fiz cara de que nem me lembrava de ter escrito a frase. O colega percebeu e tentou ele próprio, também a caminho da desmemória, lembrar-se da frase. Lembrou-se vagamente. Depois da vaga lembrança do colega, a frase voltou-me quase toda à memória. Ah, triste fim para quem a memória infalível foi um caro atributo. A memória, agora, especializa-se no esquecimento triunfal. Consolo-me pensando que o que perco em memória ganho em invenção. Ninguém está livre de um auto-engano. É preciso se conformar com as decisões do corpo e da mente. Sendo ambos poderosos aliados, o que quer que decidam vou entender que é para o meu bem. A essa altura convém recuperar parte da frase que escrevi para o colega: “A vida não dá tudo, mas dá muito” (Fernando Sabino, sem certeza). Eu trato de aproveitar muito o que a vida dá e de não lamentar muito o que a vida tira. É como diz o poeta Chacal: “A vida é muito curta para ser pequena”. Para não nos deixarmos consumir pelas pequenezas tantas que nos rodeiam, pelas imperfeições todas que nos caracterizam, precisamos de fartas doses de auto-engano. Exemplo banal: minha acuidade visual está em declínio. O que é um mal à primeira vista traz em si o precioso ganho de deixar pouco nítidos os estragos que nos lega a passagem do tempo. Isto é auto-engano: pôr enfeites na verdade nua. Verdade verdadeira? Deus me livre e guarde!

© Nota de canapé: Excelente livro de ensaios do Eduardo Giannetti.


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    katia simoes fletcher
    2 de março de 2012

    A vida é mto curta mesmo….Adorei tb, pena que vou esquecer pois temos todos o caminho da desmemória!!!


    Tarlei
    4 de março de 2012

    Querida Kátia,
    saber que a vida é curta faz a gente acordar para a necessidade de só dar atenção para o essencial. E o essencial, segundo uma jornalista de cujo texto gosto muito, não ocupa todos os dedos da mão. Para ela, “o essencial é cultivar a saúde, a família, os amigos, lavrar as palavras, apurar os sentidos, conversar com as estrelas, rir do que é de rir, chorar do que for de chorar”. Assino embaixo, em cima, do lado… Concordo total.
    Obrigado pela visita e pelo comentário!
    Abs,
    Tarlei






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