Nem pensar ©
Categoria: Música

Rubem Alves conta uma historinha que adoro. Um certo bicho, muito impressionado de a centopéia conseguir caminhar sem se atrapalhar com tantas pernas, resolveu perguntar a ela qual era o segredo. A centopéia, também espantada com o próprio feito, disse que não sabia, mas que ia passar a observar. Desde então, ela não conseguiu mais caminhar.

Depois de tanto escrever, pareço espantado com o meu próprio feito. Aí sou acometido de ligeiro pânico: sobre o que mais vou escrever? Vem-me a sensação de que não vou ter mais assunto, de que não vou conseguir escrever. Tal como o andar da centopéia, tenho de escrever sem pensar. Se penso, não escrevo. Acabo me perdendo entre as patas do bicho alfabeto, entre os buracos negros da memória. A pobre da centopéia – provida de tantas patas e sem conseguir andar; o pobre do escriba que sou – quilômetros de linhas escritas e sem conseguir uma linha mais. Tudo é possível. O natural seria: penso, logo escrevo. Por uma insondável mutação cognitiva, no meu caso o que vale é: penso, logo desisto. Por pensar tão pouco e escrever tanto, em vez do fundador “penso, logo existo”, o desnudador “não penso, logo eis isto”. Isto sou eu. Pensar? Nem pensar.

© Nota de canapé: Um sucesso da dupla Kleiton & Kledir.


(3)


    Edna Freitass
    1 de março de 2012

    querido tarlei,
    este texto está genialmente hilário. bingo!


    Tarlei
    1 de março de 2012

    Querida Edna,
    que bom que gostou! Brincar é preciso.
    Abs, Tarlei


    Angela Delgado
    13 de agosto de 2012

    Ai, que delícia!






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