O menino no espelho ©
Categoria: Literatura

Se não tem água perrier, não vou me aperrear – é o que diz Zeca Baleiro numa divertida canção. Isso para dizer que estou numa espécie de entressafra criativa – que o raro leitor perdoe a presunção de achar que tenho fases criativas. Em dias melhores, gosto de pensar em jeitos diferentes de escrever o de sempre. Em dias normais, escrevo ao correr do lápis, sem um prévio risco de bordado que pode, quem sabe, fazer render um texto mais atraente.

Hoje, lendo uma crônica da Clarice Lispector sobre o assombro dela diante do chiclete – a bala que não acabava nunca, segundo palavras da irmã –, lembrei-me de alguns de meus assombros infantis. Vou contar um deles. Uma vizinha nossa, Dona Júlia, pobre como todos nós, tinha filhos de dois casamentos. Os do primeiro casamento já eram maiores. Uma delas (não me lembro o nome) tinha sido adotada por uma família do Rio de Janeiro. Um belo dia, o pai adotivo chega à pobre casa da Dona Júlia para anunciar que estava devolvendo a filha – uma adolescente difícil que ele e a esposa, já velhos e cansados, não se sentiam mais em condições de continuar educando. E no desenrolar da conversa – a meninada da rua curiosíssima de tudo – ele vai arrolando alguns pertences com que generosamente presenteara a filha adotiva ao longo da vida. Para meu completo assombro, ele menciona um cordão de ouro. Cordão, para mim, só aqueles rústicos dos novelos de algodão. Um cordão de ouro me parecia a própria maravilha que meus olhinhos infantis não estavam preparados para contemplar. E não me lembro de tê-lo visto. Mas durante um certo tempo fui embalado pelo assombro de que existisse um cordão de ouro. Coisas da infância! Ah, que saudades!

© Nota de canapé: Livro do Fernando Sabino, menino mais que sabido.


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    Roseli
    9 de fevereiro de 2012

    Oi, Tarlei, vim conhecer seu espaço. Vi no blog Bule e tive curiosidade em conhecer. Parabéns! Mais um mordido pelo mosquito da escrita. Eu também vivo em altas crises pois não consigo ficar mais sem escrever, kkk. Parabéns pelo blog. Visual bonito, textos ótimos e temática variada. Estarei sempre por aqui.
    Abraço,


    Tarlei
    9 de fevereiro de 2012

    Oi, Roseli!
    Obrigado pela visita e pelo comentário!
    Costumo dizer que esse espaço vive das miudezas que colho no altar do cotidiano. Fico contente que tenha gostado. Sobre não conseguir mais ficar sem escrever, resta esse (des)consolo: “Quanto mais escrevo, mais escravo”.
    Sempre que tiver um tempinho a perder, apareça! Será um prazer. E vou espiar o seu “sonhosmelodias”.
    Grande abraço,
    Tarlei






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