O show do eu ©
Categoria: Literatura

Pierre Bordieau, sociólogo francês, assim se manifestou sobre os reality shows que alçam mediocridades ululantes à condição de celebridades: “Antes a condição de celebridade estava ligada a algum mérito, por bizarro que fosse. Com o advento dos reality shows, o mérito de uma celebridade não vai além do mero fato de tornar-se visível”. Sob os auspícios da idade mídia, o que se vê é a celebração do amadorismo, o exibicionismo em massa… Foi-se o tempo do rodrigueano complexo de vira-latas. Sob o primado do narcisismo, a mais consumada desimportância é oferecida em espetáculo. O fato é que, não suportando mais a chatice e onipresença das celebridades instantâneas, vituperei: “Como fala essa gente que nada tem a dizer!”. O mesmo vitupério dirigi a todos que vivem de espalhar fios de si nessa rede sem fim: “Como escreve essa gente que nada tem a dizer”. Depois de proferido o vitupério, acabei eu caindo na rede e igualmente fazendo jus a ele: nada tenho a dizer, mas escrevo sem parar. Um blogueiro cumpre o ofício de viver em voz alta, de estar visível a todo momento. Um blog é um palco e o blogueiro, um performer. Mesmo sujeito à exposição máxima a que a vida em rede nos condena, acredito desfrutar de uma visibilidade mínima (sejamos otimistas). E o que mais faço na rede é repartir nonadas a três por quatro, é constelar o miúdo chão que me constitui. Conto que a visibilidade mínima atenue os efeitos da minha grafomania desenfreada.

© Nota de canapé: Livo de Paula Sibilia. Trata do fenômeno da evasão de privacidade. É o advento do que se poderia chamar intimidade pública.


(0)





© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress