Que rei sou eu? ©
Categoria: Televisão

Por alguma razão insondável, dispus-me à tarefa de inventariar as palavras abrigadas no meu nome, Tarlei. Fiquei espantado com o que descobri: um nome de apenas 6 letras desdobrou-se em 21 outras palavras, boa parte delas caras ao meu coração. De posse da descoberta, tentei alinhavar uma espécie de autorretrato a partir dessas palavras (em azul). Eis o que consegui:

“Que rei sou eu, cabe perguntar? Por certo, um rei vagabundo, sem eira nem beira, longe de qualquer majestade e que nunca há de se sentir o tal. Um rei humílimo fiel ao ofício encantado de ler para ser. Um rei tirânico que decretou para si só uma lei: seguir sempre em linha reta rumo à beleza. Um rei sonhador para quem o real é tudo aquilo que rompe as paredes do lar e vaza para o oceano da ficção. Um rei cativo da arte e da vida, unidas desde sempre por uma teia invisível e poderosa. Um rei tecelão que puxa do tear da memória fios de letra em busca de palavras que o definam. Um rei devoto que deseja ter sempre onde praticar a liturgia diária da leitura, não importa se no papel ou se na tela. Um rei vira-lata (ou vira-letras?) que adora latir por escrito. Um rei tímido mas que, se lhe dão trela, é capaz de ir longe, feito estivesse a bordo de um iate singrando o mar sem fim da imaginação. Um rei lavrador, fazendeiro do ar (dá-lhe Drummond!), em cujo quintal há sempre uma leira pronta para receber a semente da palavra e de onde espera, quem sabe, colher palavras a mancheias, alimento para a vida inteira. Um rei paciente que deseja ceder o menos possível à tentação da ira. Um rei saltimbanco que deseja ceder o mais possível à sedução da lira. Ah, quem dera eu fosse esse rei que desenhei!”.

© Nota de canapé: Telenovela de enorme sucesso do saudoso Cassiano Gabus Mendes, exibida em 1989, sob direção geral de Jorge Fernando.


(2)


    Angela Delgado
    12 de agosto de 2012

    Acontece que você é esse rei.
    Falando em rei, o livro da excelente Rosa Montero “História do rei transparente” é muito bom. “Devemos ser respeitosos com as palavras, porque são o recipiente que nos dá a forma.”
    “Mas as palavras não devem ser como o mel, pegajosas e espessas, doces armadilhas para moscas incautas, apenas cristais transparentes e puros que permitam contemplar o mundo através delas.”
    Haja tempo para o deleite que há na vida! E tem gente que se suicida… Esses antes de cometerem tamanho desatino, deveriam poder doar seu tempo desprezado para escritores de talento, como um que conheci recentemente…


    Tarlei
    12 de agosto de 2012

    Acontece que você, em apenas dois dias, virou a campeã absoluta dos comentários no meu puxadinho. Como agradecer?
    Li de Rosa Montero apenas o “A louca da casa”. E gostei muito. Anotei a dica do “História do rei transparente”.
    Escritor? Talento? Sua generosidade não conhece fronteiras. Digo que mexo com palavras, essa espécie escorregadia.
    Abs,
    Tarlei






© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress