Gente humilde ©
Categoria: Música

(PSiu: Para lembrar que hoje é o Dia Mundial da Solidariedade)

Talvez eu já esteja um pouco distante da minha humildade original – só espero que não muito. Quando se tem algum dinheiro, alguma presumível posição social, há uma certa tendência à intolerância que acho intolerável. Fico vigilante. Os endinheirados se julgam com direitos demais e, em conseqüência, reclamam demais, esquecendo-se de que a voz da delicadeza, do cuidado, do jeito, fala muito mais alto no código tácito da convivência. Mas os endinheirados em geral passam ao largo do mundo das sutilezas, dos afetos espontâneos… Faço essa introdução para contar duas cenas que presenciei dia desses – uma delas muito triste, a outra nem tanto. A primeira cena, a menos triste, aconteceu na parada, nem 7 da manhã. Nessa hora não há quase ninguém na parada. Pois estava lá uma senhora de, calculo, uns 60 anos. Um ônibus vem vindo e ela faz um tímido sinal. Seja porque ela não estivesse enxergando bem e não quisesse sofrer o mau humor dos motoristas quando param indevidamente, seja porque a timidez fosse já conseqüência do desrespeito a que são submetidos os idosos humildes, o fato é que o motorista não parou. Eu também fiquei indeciso e não me dispus a dar um sinal vigoroso para o motorista. A senhora reclama um pouquinho, nada demais. Logo depois ela avista uma amiga que saía de outro ônibus, pronto chamando-a e indo em sua direção: “Rufina! Rufina!”. O encontro com essa amiga parece consolá-la da contrariedade de há pouco. Abraçam-se. Conversam. Não pude ouvir o que conversavam. Mas pude ver que a senhora ostentava um minúsculo piercing encravado no nariz, toda sexigenária. Adorei!

A outra cena, tristíssima, aconteceu à noitinha, no restaurante Green’s. Enquanto tomava o caldo de todo dia, percebo que uma mulher de idade indefinida entra timidamente. Logo se percebe que é uma pedinte. A mulher se aproxima de uma cliente e diz: “É que a senhora falou que ia pagar uma sopa pra mim”. A cliente responde indelicada, impaciente: “E eu falei pra você não ficar ao meu redor”. Horrível! A mulher sai cabisbaixa, humilhada, ofendida em seus brios de pedinte. A cliente paga a conta, sai e não vejo sinal de que tenha pago a sopa para a mulher. Fico preocupado. Procuro pela mulher – que está sentada na área externa do restaurante. Constato que a cliente de fato não pagou nada, incomodada, ao que parece, com a insistência da mulher em ficar-lhe ao redor. Ofereci uma sopa a ela mas, nessa altura, outra cliente, magnânima, já tinha se antecipado. A mulher, ainda visivelmente ofendida e magoada, fez questão de dizer que eu era um moço muito educado. Mas ali, mais que a educação, falou mais alto a comiseração. Fui para casa cambaio, de alma pensa, pleno de desencanto pelo que pode um humano fazer a outro.

© Nota de canapé: Um clássico do nosso cancioneiro, parceria de Vinícius de Morais e Garoto.


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