Carta para você ©
Categoria: Literatura

(PSiu: Em homenagem ao Dia do Carteiro)

Quando este puxadinho virtual era ainda um desejo errando informe nos desertos da vontade, pensei chamá-lo, sem nenhuma originalidade, Carta para você. Questão de pouca importância porque, como sabemos, a originalidade há muito deixou de ser uma tendência… A tendência é a repetição; afinal, vivemos num “mundo de espelho onde tudo se replica” (Will Self – escritor inglês – acho!). A ideia, que o título torna óbvia, era escrever para uns tantos destinatários, acrescentando o toque, também nada original, de ignorar a barreira do tempo. Explico: pretendia escrever tanto para quem estivesse no círculo do tempo quanto para quem já estivesse fora do seu círculo. Lembro com saudades das cartas que escrevi a Ludwig Wittgenstein, atrevimento que cometi numa pós-graduação lato sensu. Minha inspiração para esse atrevimento veio da Drª Nise da Silveira. Tão apaixonada ela era pelo pensamento de Spinoza que resolveu escrever a ele. O resultado está no livro Cartas a Spinoza. Como ando cada vez mais atrevido, segue uma pequena amostra do que escrevi a Wittgenstein.

Trechos da primeira carta

Meu caro Ludwig, não se assuste com esta carta vinda de uma pessoa, de um lugar, de um tempo inteiramente estranhos à sua realidade. É que, a despeito do tempo e do espaço que nos separam, nascemos ambos da mesma mãe: a linguagem. Apesar de paridos pela linguagem, uma orfandade cósmica nos marca a todos. É por isso que seguimos em busca de pistas sobre a nossa própria existência. (…) Perdoe tamanha digressão, antes mesmo de me apresentar. A linguagem tem disso: puxamos os seus fios e facilmente nos deixamos enredar. (…) O tempo de que falo é o início do século XXI, o lugar é o Brasil, e eu “um bugre perdido na luz de néon”. Não creio ser preciso dizer mais sobre mim. O que importa é que por mais que haja diferenças de circunstância entre mim e você, o molde da linguagem nos irmana em fatal identidade. (…) Desculpe os termos vagos desse primeiro contato, Ludwig. Creia que há, embora inexpresso, um halo de admiração e respeito perpassando cada linha escrita. Se o tom ficou demasiado impessoal, credite-o a um sintoma de meu tempo que praticamente aboliu certos circunlóquios, sobretudo os que se avizinham de um tom reverente. A iconoclastia é um mandamento dos tempos atuais ao qual não aderi: estou longe de ser um iconoclasta. Mas a timidez excessiva me distancia da reverência que eu devia tributar-lhe. (…)”

Trechos da última carta

Meu caro Ludwig, já é tempo de poupá-lo do meu diletantismo filosófico. Não posso deixar de me desculpar pela insolência com que rompi o círculo do tempo, disposto a importuná-lo com meus canhestros exercícios na seara da linguagem e do conhecimento. É forçoso admitir: os medíocres são parlapatões, boquirrotos, cabotinos. Os gênios, ao contrário, costumam ser silenciosos, discretos, pudicos, distraídos de si. Não preciso dizer que me alisto na ala dos medíocres, com a diferença, apenas, que possuo na timidez um freio poderoso que me impede de alardear minha mediocridade. (…) A essa altura, espero ter desfeito um pouco do espanto que minha aparição súbita, saída dos confins do futuro, possa ter causado a você. Ao fim desse périplo, sinto-me forçado a repetir – tudo é repetição – que o mundo não teria razão de ser na ausência do homem. O mundo é produto da interpretação humana ancorada no suporte simbólico da linguagem. O homem precisou construir a linguagem para ter acesso ao mundo. A linguagem é abrigo de todos os conhecimentos. E se a linguagem é uma grande tecelã, é forçoso reconhecer que seus fios não se trançam por si mesmos. O trabalho da agulha é fundamental. A filosofia seria, assim, uma espécie de agulha, presença virtual por trás de todo tecido, por trás de todo conhecimento.”

© Nota de canapé: Livro organizado por Joshua Knelman e Rosalind Porter, tradução de Ângela Pessoa.


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