A máquina de ser ©
Categoria: Literatura

Tenho grande interesse por livros que tratam da relação mente-cérebro. Já li muito sobre o assunto e não tenho qualquer conclusão formada. Há um ramo específico da filosofia que se dedica ao assunto – a chamada Filosofia da Mente. Começa por ser um assunto de natureza inter-, trans-, multidisciplinar. Daí se pode imaginar a multiplicidade de visões onde o consenso não acha lugar. Um desses livros é A ilusão da alma, do Eduardo Giannetti, um economista que tem avançado, com competência, em outros domínios. Gosto do texto dele – elegante, bem escrito, argumentação consistente, muito bom de ler… O interessante do livro é seu viés ficcional ou o que eu chamaria, para ser inexato, de um ensaio de ficção. A leitura do livro, embora prazerosa, não me tirou da inconclusão que o assunto suscita. Há um filósofo (John Searle) que diz que o cérebro tem, entre outras funções, a função de produzir a mente, assim como o estômago produz a digestão. O intrigante é que a afirmação tem um quê de verdade: sabe-se bem das consequências que certas lesões cerebrais trazem às representações mentais. Parece que estamos diante de um caso de assimetria insolúvel: se é plausível pensar que a mente emerge do cérebro, não parece plausível pensar que a mente se reduz a ele. A mente que governa a nossa máquina de ser é filha do cérebro, mas está além dele. É tudo muito estranho e misterioso. E por isso mesmo fascinante. Eu adoro viajar por esses mistérios. E quanto mais viajo, mais me perco. Não me importo. Manoel de Barros me socorre: “Me procurei a vida inteira e não me achei – pelo que fui salvo”.

© Nota de canapé: Livro do escritor João Gilberto Noll.


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