Almanaque ©
Categoria: Música

Está no Aurélio: “Almanaque é publicação que contém matéria recreativa, humorística, científica, literária e informativa”. Tirante o fato deste blog não conter matéria científica, e com a humilde presunção (passe o paradoxo) de supor que há nos meus escritos alguma matéria literária, o mais que diz o Aurélio é a cara deste puxadinho virtual. O Aurélio diz mais. Diz que almanaque é lugar de cultura, saber, conhecimento, imperfeitos, precários, superficiais. Tudo o que escrevo vem com o selo de imperfeito, precário, superficial. E se assim é, chego à conclusão de que venho fazendo um almanaque perfeito – perfeito na sua precariedade e superficialidade. Apesar da natureza precária e superficial, um almanaque não deixa de ter utilidade – penso. Quem vai a um almanaque sabe o que vai (e não vai) encontrar. Neste almanaque o raro leitor vai encontrar acontecimentos baldios, relembranças, homenagens, mínimas reflexões, alguma provocação, bobagens a mancheias, um pouco de espanto, um pouco de delírio, um pouco da quieta substância dos dias e o mais que compõe o desfile das horas – tudo embrulhado com o papel da leveza. O leitor que esteja à procura de vastas idéias, altos pensamentos, “flamante novidade ou sopro de Camões”, não os encontrará aqui. “Aquilo que revelo (…) são notícias humanas, simples estar-no-mundo, e brincos de palavra, um não-estar-estando, mas de tal jeito urdidos o jogo e a confissão que nem distingo eu mesmo o vivido e o inventado” (Drummond). O leitor que goste de ciscar ninharias encontrará aqui o ninho perfeito. Para esses leitores digo: este almanaque é todo seu.

© Nota de canapé: Canção de Chico Buarque.

(2)


 




Desmundo ©
Categoria: Cinema, Literatura

Ouvi do escritor Gonçalo M. Tavares, em palestra na última Bienal do Livro de Brasília, a fábula do aprendiz de feiticeiro aplicada ao capitalismo. A fábula, aliás, se aplica a todos os grandes sistemas que regem nossas vidas, sejam econômicos, políticos, tecnológicos, religiosos ou de qualquer outra natureza. É no domínio da economia e da tecnologia, muito especialmente, que mais se percebe a ação dos aprendizes de feiticeiro. Como se sabe, o feiticeiro ensina ao aprendiz a palavra mágica que põe algo em movimento, não sem antes advertir ao aprendiz que não a pronuncie. O aprendiz, mesmo sabendo que lhe falta a palavra mágica que faça parar o movimento, resolve pronunciá-la, e dá início ao movimento. Uma vez a coisa posta em movimento, ficamos para sempre reféns dela e de seus desdobramentos, numa espécie de moto-contínuo. Não parece o retrato perfeito do sistema capitalista? É um sistema insustentável por excelência, mas como freá-lo? Mesma coisa quando se olha para os lados da tecnologia: quem conseguirá deter o avanço das máquinas sobre o mundo, vasto mundo? Como desfazer esses feitiços? Porque se não os desfizermos, se eles prosseguirem na sua espiral sem fim, o mundo entrará em colapso. Os sistemas que estão no volante do planeta são cada vez mais totalizantes. E todo grande sistema está sujeito à desordem entrópica que poderá aniquilá-lo. Como está tudo interligado, o que aniquila um sistema, aniquila também tudo o mais que vive em função dele. Sem querer ser apocalíptico, não parece que estamos a caminho de um desmundo? Se é verdade que muita coisa está fora da ordem, nem por isso deixo de acreditar nas “diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final” (Caetano).

© Nota de canapé: Livro de Ana Miranda. O diretor Alain Fresnot o levou para o cinema. No filme se vê a barbárie dos tempos da colonização portuguesa. Nos tempos de hoje, não perdemos a condição de colonizados – nem de bárbaros.

(4)


 




© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress