De malas prontas ©
Categoria: Literatura

Estou de malas prontas, rumo a Paraty, oito anos depois da minha primeira Flip. Não fosse eu o preguiçoso que sou, teria voltado todo ano, tanto me encantei com a cidade e a festa em torno do livro. Tanto assim que, ao voltar daquela primeira Flip, prometi: Paraty, eu volto! Tô voltando, não importa que depois de tamanho lapso de tempo. Até o fim do dia de hoje espero estar pisando de novo aquelas pedras imperiais e de novo respirando literatura por todos os poros. Infelizmente terei de voltar antes do fim da festa. E que os dias que lá ficarei valham por todos. Além de curtir a festa da cidade e a cidade em festa, vou aproveitar o momento para atrair alguns leitores. Explico: levo na bagagem cem exemplares de Quase Nada, livro com que pretendo presentear os improváveis leitores interessados. Meu receio é que os leitores não acreditem tratar-se de um presente ou, mesmo acreditando, não o aceitem. Se isso acontecer – e que assim não seja! –, corro o risco de retornar com os cem livros na bagagem, quando o meu desejo é voltar sem nada, ou quase nada. O editor e alguns amigos dizem que oferecer o livro de graça é um meio de desvalorizá-lo. Eu penso que o valor de um livro é de outra ordem, quase nada tendo a ver com a questão comercial. Um livro vale por si mesmo. Mas, desconfiado de que o meu livro possa espelhar o título com que o batizei, então é justo que o preço seja também quase nada – ou nada. Um escritor quase anônimo precisa, antes de tudo, ganhar leitores, não importa se dois, dez ou cem. O que ele não pode é ficar sem leitores. Deixar de ser anônimo, ganhar algum dinheiro (Eu não preciso de muito dinheiro, graças a Deus – Waly Salomão e Jards Macalé), isso é assunto para um futuro quando. Agora é só pensar na viagem, na festa, nas delícias de Paraty. E o leitor que desejar ganhar Quase Nada, me procure nas proximidades da Tenda do Telão. Será um prazer. Até lá!

© Nota de canapé: Livro da Danuza Leão.

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História de uma gata ©
Categoria: Música

Não me alimentaram, não me acariciaram; ao contrário, me machucaram. Na escuridão da noite, não pude ver nem quem nem o quê me machucou. Sei que, machucada, fui parar num quintal aonde passo todas as noites em busca do que comer. Na varanda que fica de frente pra esse quintal, sempre vejo um moço ou lendo ou escrevendo – e a cara do moço me pareceu de gente boa. Resolvi me abrigar nesse quintal. Como a fome era muita, tentei me aproximar da casa. Não fui bem recebida. Ao ser expulsa, me enfiei debaixo do carro e lá fiquei. Machucada como estava, eu não podia correr o risco de procurar abrigo em outro quintal. Minha sorte foi uma moça que apareceu na casa e, condoída de mim, me deu às escondidas um pedacinho de carne. Deu pra passar a noite sem a dor da fome, só com a dor do machucado na perna. Dia seguinte, o moço voltou a me expulsar, não com violência, mas com firmeza. Refugiei-me no quintal. Passei o dia sem comer. Acho que o moço acabou se condoendo de mim porque, no outro dia, me ofereceu uns restos de pão e um pouco de leite. Alimentada, passei o resto do dia ronronando e tomando banho de sol. Não fosse o machucado na perna, à noite eu poderia voltar à ronda dos quintais, eu poderia voltar a ser mais eu, mais gata. Antes do anoitecer, duas anjas (será que anjo tem sexo?) apareceram de repente, imagino que por iniciativa do moço ou da moça. Mesmo acostumada aos maus-tratos, farejei de cara que tinham vindo me salvar. Uma das anjas me pegou no colo, me acariciou, examinou a perna machucada, confabulou com a outra anja e decidiu me levar pra casa. Naquela hora, tive certeza de que eu estava indo para um mundo de “detefon, almofada e trato”. Mas iria sentir saudades de quando, à luz da lua, eu me juntava aos gatos da rua e saía cantando assim: “Nós, gatos, já nascemos pobres / Porém já nascemos livres / Senhor, senhora, senhorio / Felino, não reconhecerás”.

© Nota de canapé: Canção que faz parte da trilha sonora do filme Os Saltimbancos Trapalhões, por Enriquez/Bardotti/Chico Buarque. Se você mantém residência fixa na infância, não deixe de ouvi-la aqui.

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