Labirinto ©
Categoria: Televisão

Nascer é entrar no labirinto que nos acompanhará até o fim. Falo do labirinto de nós mesmos, o que habita em nós, e do labirinto do mundo, que temos de habitar. Transitar por esses labirintos é tarefa cada vez mais complicada. A dinâmica de um labirinto é a crescente complexidade. Tudo nos ultrapassa. É pelo caos que temos de nos orientar. A sorte é que não temos consciência do que é viver fora do labirinto. O labirinto é constitutivo do humano e do mundo que os humanos vêm deixando atrás de si. Por dentro, um labirinto de sentimentos, de pulsões, de incertezas etc. Por fora, o labirinto de outros humanos, o labirinto das leis, da tecnologia, das ciências, das megacidades etc. Não temos saída. O jeito é conviver com o labirinto de dentro e de fora. Não se trata de compreender o labirinto, tarefa que nos ultrapassa, mas de, inescapavelmente, conviver com ele. Considero que a leitura (falo de uma leitura total) seja o caminho por excelência para se navegar no labirinto. Num labirinto, tudo é texto à espera de leitura, de decifração. Há uma espécie que se dedica especialmente a fixar no espelho da palavra escrita tudo o que consegue recolher do labirinto que a rodeia e permeia. São os escritores, esses frágeis construtores de fragilidades. Eles é que tentam pôr um pouco de ordem no caos que nos constitui. E também um pouco de desordem nas certezas que insistimos em carregar. A palavra escrita, para mim, é a mais poderosa das bússolas. E dela não abro mão para me orientar no labirinto do caos. Com ela me perco e me acho. Me dano e me salvo. Se é fatal nos perdermos no labirinto, que ao menos a gente não perca de vista o farol da palavra escrita. É o que garante, desconfio, que a gente se sinta um pouquinho menos perdido.

© Nota de canapé: Minissérie de Gilberto Braga exibida em fins dos anos 90.

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Bola de meia, bola de gude ©
Categoria: Música

(PSiu: Em homenagem ao Dia Internacional do Brincar)

Não sei o que vou bolar para fazer um texto com esse título fazer sentido. Preocupação de pronto descartada: sendo um texto de brincadeira, não precisa fazer sentido lógico – só sentido lúdico. Em lugar da bola de meia (com que nunca brinquei) e da bola de gude (já brinquei muito), entram as letras do alfabeto. E com elas posso fazer/escrever qualquer brinquedo, não apenas bola de meia, bola de gude. Brincar é meu ofício. “Tenho preguiça de ser sério” (Manoel de Barros). Eis toda a verdade: “Há um menino, há um moleque morando sempre no meu coração. Toda vez que a tristeza me alcança, ele vem pra me dar a mão”. Estou sempre de mãos dadas com a criança que trago em mim. Com ela por perto, estou sempre pronto pra ser encantado. A criança que sou se encanta por qualquer acontecimento ordinário. E o ordinário, pelos olhos da criança, ganha ares de extraordinário. A infância dura quase nada – mas dura para sempre na parede da memória. Acho que Machado de Assis disse uma frase assim: “O menino é o pai do homem”. Concordo total. Quase tudo que se vive na infância vai direto pro ninho da memória. O menino que é meu pai vive aprontando criancices no reino da palavra. O pai do meu menino deixa que ele faça o que bem entenda com seu brinquedo favorito. Brincar é minha sina. Dou o maior valor à brincadeira. Brinco a sério, mas não me levo a sério. Falar sério? Fala sério! Tô fora. Já estou a caminho da terceira infância sem abrir mão de brincar. E desejo poder seguir brincando até o fim. Vamos brincar?

© Nota de canapé: Das mais lindas parcerias de Mílton Nascimento e Fernando Brant. Pode ser ouvida aqui.

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