O último dia ©
Categoria: Música

Já não dá mais pra ficar indiferente aos rugidos do Leão. É depois de amanhã (30/abr) o último dia para a entrega da declaração de renda. Não basta ao Leão beber na fonte todo mês. É preciso fazer o acerto de contas anual, ocasião em que se apura se o Leão bebeu demais ou de menos. Mesmo sabendo que o Leão bebe demasiado na fonte, eu, por mim, não teria o menor interesse em exigir do Leão a restituição do que ele terá bebido demais. Mas quem diz que o Leão faculta à fonte essa prerrogativa? O acerto de contas é obrigatório e pronto. Lei de Rei é assim: feita para não discutir. Não tenho saída. É hora de juntar a papelada. É hora de baixar o programa. É hora de enfrentar a fera. E mantenho a tradição, da qual não me orgulho, de só enfrentar a fera às vésperas do último rugido. Eu poderia muito bem livrar-me do jugo do Leão logo nos primeiros dias de abril. A experiência tem mostrado que o duelo com o Leão não dura mais que uma hora. Ainda assim, evito o Leão até o último dia. Nesse dia, eu viro uma fera indignada . Mas o Leão, como era de se esperar, sai sempre vencedor. Argh!!!

© Nota de canapé: Canção de Paulinho Moska.

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A vida gritando nos cantos ©
Categoria: Literatura

O trajeto da volta da missa, aos sábados, costuma incluir uma parada para a compra do frango de domingo. Paro, minha mãe desce, e eu nem desligo o carro, tão rápida é a compra. Em certo sábado, apesar da rapidez, pude colher um flagrante da vida gritando nos cantos. Enquanto espero, vejo duas mulheres sentadas no chão da varanda de casa, de frente para a rua, quase de frente para o carro parado rente ao meio-fio, quase de frente pra mim. Parecia uma conversa natural. Pareciam amigas repassando lances do dia, da vida. De repente, uma delas, a mais velha, começa a chorar. É um choro discreto, contido. A mulher mais nova abraça a mulher que chora, um abraço pleno de acolhimento. Devia ser uma dor urgente, que a mulher não conseguiu segurar mesmo estando diante de uma testemunha tão próxima – que era eu, curioso e não menos solidário. Apesar da contenção, apesar da discrição das lágrimas, uma dor que dói assim tão exposta só pode ser dor muito doída. Dores de amores? Não importa. O que importa é que viver dói. E ponto. O meu desejo era só que fosse dor remediável. Para certas dores, as lágrimas são um santo remédio. SoliDORizei-me total com as lágrimas da mulher. E foi bonito ver o abraço solidário da outra mulher. Segui meu caminho. As duas mulheres continuaram sentadas no chão da varanda de casa, uma com sua dor, outra com sua solidariedade. E eu sabia que elas se entenderiam e se amparariam de um jeito que nenhum homem o faria, por sensível que fosse.

© Nota de canapé: Livro de crônicas do Caio Fernando Abreu (1948-1996), publicado postumamente.

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