Tu não te moves de ti ©
Categoria: Literatura

Sou um leitor crônico. E a leitura de literatura é a mais profunda vivência de alteridade que se pode experimentar. Contudo, essa experiência é mediada e condicionada pela minha subjetividade. Leio o outro, mas com os óculos do “eu”. Não leio o outro em si mesmo. O que leio no outro é o que projeto de mim naquela dada vivência que experimento a partir de um outro. Nem por isso a leitura de literatura, e a vivência de alteridade que ela propicia, deixam de ser profundamente necessárias. É o contínuo experimentar do que se passa em outra subjetividade que expande minha subjetividade – e que lapida minha humanidade. Invocando o Rosa, “é preciso sentir até tirar as cascas da alma”. É a leitura que permite esse mergulho profundo em outros “eus”. Ouso dizer que não há outros “eus”. Há sempre eu mesmo visitando outros “eus” que, no fundo, são o mesmo “eu”. Senão o mesmo “eu”, pelo menos eu mesmo – que é a única subjetividade que experimento. Os outros “eus” que vivencio pela leitura são o meu “eu” projetado em outro “eu”. Todos os “eus” dos outros sou eu mesmo – acho. Por uma razão elementar: eu não me movo de mim. E tu não te moves de ti. Mas uma coisa é certa: eu e tu nos encontramos todos na leitura um do outro.

© Nota de canapé: Livro da fabulosa Hilda Hilst (1930-2004).

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Assim caminha a humanidade ©
Categoria: Música

Não dá pra saber, no tinte (♪), como (des)caminha a humanidade, mas sei como caminham alguns humanos. Falo dos caminhantes que conheço de vista e com quem divido o espaço de caminhada no entorno de uma praça perto de casa. O horário escolhido é o da manhã – e é o escolhido de poucos. Numa contagem imprecisa, creio não passarem de dez, eu incluído. Desses dez, apenas dois vejo quase todos os dias no mesmo horário: um senhor e uma senhora. O senhor (uns 70 anos ou mais) caminha muito devagar. A regularidade dos encontros já permitiu que fôssemos um pouquinho além do bom-dia. Ainda lembro a primeira pergunta que fez: até que horas eu iria caminhar. Ele tinha receio de ficar sozinho na praça. Outra vez, assim que me viu, a pergunta já engatilhada: “Tá começando agora?”. Com a quase intimidade estabelecida, um pouquinho à frente ele perguntou quantas voltas eu dava. Respondi que não contava as voltas, mas o tempo: uma hora. Ele, ao contrário, contava as voltas: doze. Pela velocidade da caminhada, presumo que ele leve bem mais de uma hora para cumprir a meta. Com a senhora (também uns 70 anos ou mais) ainda não cheguei ao estágio do bom-dia. Seu caminhar é apressado. Traz sempre uma mochila nas costas. Imagino que ela caminhe depois da hidroginástica que o poliesportivo oferece – a praça é ocupada por um poliesportivo mantido pela prefeitura. Reparo que ela manca um pouquinho de uma das pernas, o que não impede o ritmo da caminhada. E a senhora ainda faz alongamento – acho o máximo! Afora o senhor e a senhora, há os caminhantes casuais, há alguns corredores, há o passeio puro e simples pela praça. Há quem fale ao celular o tempo todo. Há quem ouça música (a maioria) no celular. Há aqueles para quem a caminhada (lenta, muito lenta) é só um pretexto para pôr a conversa em dia com quem caminha ao lado. Colho um pouco das conversas baldias, enquanto sigo na minha caminhada ritmada, sem celular, sem música, sem conversa, apenas um relógio no bolso para conferir o tempo. E assim caminho eu, todo dia.

(♪) Expressão que colhi no Grande sertão: veredas. “No tinte”, para mim, tem parentesco com “tintim por tintim”, aquilo que se conta em minúcias.

© Nota de canapé: Canção de Lulu Santos.

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