Pé na tábua ©
Categoria: Música

Nenhum assunto engatilhado e o compromisso moral de escrever o post que pousará na tela amanhã de manhã. Vou escrevendo a esmo enquanto o assunto não chega. Jornal Nacional terminando, novela das nove começando e eu emendando uma palavra na outra. Dia terminou meio tumultuado. Não sobrou tempo de selecionar um possível assunto. Pela manhã, lendo o livro da vez (Adeus, Facebook), deparei com a expressão “Pé na tábua”. Pensei comigo que era um bom título. Era só escolher um assunto que coubesse nele. Não houve tempo. E a hora de escrever chegou. O jeito é escrever sem assunto. Nenhuma novidade nisso. Alguém diria que isso é mais velho que andar pra frente. Não tenho assunto? Pé na tábua assim mesmo e vamos que vamos. Não sou de me embaraçar com nada quando se trata de escrever. Em matéria de viver, me embaraço com qualquer coisa. Interfone toca: é o porteiro avisando que tem um registrado pra mim. “Registrado pra mim” é sinal certo de livro. Oba! Licencinha pra eu buscar a encomenda. De volta. Sim, é um livro. É uma biografia do publicitário Carlito Maia com o subtítulo “A irreverência equilibrista”. Algo me diz que ou eu já li esse livro, ou já o tenho. Isso só vou saber no dia em que me dispuser a organizar minha biblioteca. Esse dia chegará? Impossível saber. Só o que sei é que seguirei comprando livros e, em alguns casos, re-comprando livros. Não faz mal. Vou me equilibrando bem entre um deslize e outro. E pé na tábua, sempre!

© Nota de canapé: Versão da compositora Marina Lima para uma música cujo nome original não sei qual é.

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As idéias fora do lugar ©
Categoria: Literatura

Tenho momentos de atenção absoluta e de distração idem. Não sou de perder coisas, mas estando sujeito a cair nos braços da distração, tudo é possível. Minha primeira providência ao chegar no trabalho, antes mesmo de ligar o computador, era sacar o pendrive (♪) da mochila. O pendrive ficava no mesmo compartimento do moedeiro, da chave de casa, do crachá, de uma cartela de Dorflex, de uma caneta de estimação (uma amiga me trouxe de Paris). Enfiava a mão na mochila e o procurava aos tateios. Em certa manhã repeti o gesto, mas lá não estava o pendrive. E na minha memória havia a nítida impressão de tê-lo retornado à mochila, como fazia todo dia. Entrei em pânico, tomado pelo medo de ter perdido meu bichinho. Já havia acontecido de, ao retirar algo da mochila, outra coisa vir junto. E se o pendrive tivesse caído da mochila na hora da retirada do crachá, por exemplo? A suspeita da perda do pendrive me deixou com as idéias fora do lugar. Mal consegui trabalhar naquela manhã. Hora do almoço voei pra casa, o coração quase saindo pela boca. Abri a porta de olho posto no ninho do pendrive. Lá estava ele no seu ninho, ovo prenhe dos lances da vida miúda (minha e de meus vizinhos de caminhada) que ali vou aninhando. Passada a aflição, quis entender a astúcia da desmemória. Como é possível alguém se lembrar com nitidez de algo que não fez? Concluí que a memória grava alguma coisa antes mesmo do gesto se efetivar na realidade. Algo assim: devo ter decidido guardar o pendrive. Ato contínuo, mentalmente fiz o percurso de ir até a mochila e guardá-lo, o que bastou para eu gravar o gesto na memória. Alguma coisa deve ter me distraído e não consumei o gesto. Não houve o gesto, mas já havia a memória dele. Será possível isso? Além de me fazer descobrir essa possível astúcia da memória, o episódio serviu para eu cair em brios e manter um back-up de tudo que está no pendrive. Ainda assim não me sinto seguro. E comungo com o que disse a escritora Ana Elisa Ribeiro: “Onde é que há espaços seguros neste mundo de virtualidades?”.

© Nota de canapé: Livro de ensaios de Roberto Schwarz.

(♪) Não encontrei uma fonte segura sobre a grafia correta. Optei por deixar tudo junto.

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