Comunidá ©
Categoria: Música

O meu clã é de gente que faz. Não desonro a estirpe familiar, mas sou de pouquíssima habilidade para quase tudo. Se me puserem tomando conta de uma churrasqueira, por exemplo, não sairá nada. Na nossa casa, essa parte ficou com meu irmão e ele se desincumbe dela muitíssimo bem. Mesmo dotado de pouca habilidade, não me recuso a pôr a mão na massa. Numa recente visita que fizemos, minha mãe e eu, a parentes de Cuiabá, houve ocasião da família exercer plenamente o lado “gente que faz”. Combinou-se um churrasco na casa de uma prima. E cada qual tomou para si uma tarefa. Nenhum convidado deixou de participar com algum tipo de ajuda. Um leva um pouco de carne, outro faz a comida, um prepara a maionese, outro cuida do vinagrete, um cuida da churrasqueira, outro busca bebida, um busca gelo, outro busca carvão, um cuida de lavar vasilhas – e todos se divertem. Sem muito esforço individual, arma-se o melhor churrasco – em quantidade, qualidade, animação – com o pouquinho de cada um. Eu fico encantado com o poder do improviso que se traduz nesses milagres de cooperação. Devo dizer que minha mãe honra com louvor esse traço familiar. Sendo a cozinha o domínio dela, assume com facilidade a função, ainda mais em casa de parente. Se não assume, auxilia com desenvoltura. O meu domínio é o da pia: lavo – e bem – o que for preciso. A verdade é que nem minha mãe nem eu nos comportamos como visitas nas visitas que fazemos. Esse espírito de comunidade está bem disseminado na família. Somos todos assim. Aprendemos desde cedo a ser assim. Meu lado preguiçoso não me permitiu desenvolver muitas habilidades. Ainda assim, creio não manchar o histórico familiar de “gente que faz”. É o que espero, pelo menos.

© Nota de canapé: Parceria de Gilberto Gil e Celso Fonseca. A gravação de Gal Costa pode ser ouvida aqui.

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Tanto faz ©
Categoria: Literatura

Não sei onde arranjo forças para enfileirar tantas palavras há tanto tempo. Tanto faz se tenho assunto ou não, tanto faz se tenho tempo ou não, tanto faz se o texto faz sentido ou não, tanto faz se escrevo sobre isso ou aquilo, “tanto faz que eu me esqueça do meu compromisso, com isso ou aquilo que aconteceu dez minutos atrás”, tanto faz como tanto fez, é certo que quase todo dia um texto escorre para o papel. E de três em três dias um texto desliza pela tela. Nessa brincadeira, completo hoje 400 postagens. Tanto tempo e tantas palavras depois, tudo continua tal e qual. Onde arranjo tanto tempo, e disposição, e paciência para agarrar com palavras quaisquer acontecimentos ou desacontecimentos? Eu nada sei. E não sabendo, quase todo dia cuido de emendar uma palavra na outra. Tantas palavras enfileiradas podem levar a lugar nenhum. Tanto se me dá. Eu lá preciso chegar a algum lugar? Contento-me só em estar a caminho. Para onde e para quê não têm a menor importância. Mas uma coisa sei: “Sei que não vou por aí”. “Só vou por onde me levam meus próprios passos”. E no meu passinho miúdo vou indo, ora por aqui, ora por ali. Tanto faz se numa direção ou noutra, o que quero é caminhar. E nada melhor que seguir “caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento”.

© Nota de canapé: Livro tido como um clássico dos anos 80, de autoria de Reinaldo Moraes.

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