Tempo seco ©
Categoria: Literatura

Por aqui não chove há quase três meses. É o que basta para eu me apossar do exagero hiperbólico do Nelson Rodrigues e dizer que os candangos estamos padecendo um calor de três desertos, sem contar que o sol do meio-dia está de rachar catedrais. A previsão do tempo anuncia chuvas apenas para a segunda quinzena de setembro. E em se tratando de previsão, ainda mais se do tempo, tudo cai nos domínios do imprevisível. Enquanto isso, tome horizonte enfumaçado, tome verde nenhum, tome tonturas por causa da baixa umidade, tome desconforto térmico… Pra não dizer que é tudo desolação, a natureza regala-nos justo nessa época com a floração majestosa dos ipês. Até a natureza vegetal tem seus caprichos. Os ipês, para melhor cumprirem o ofício da beleza, explodem suas cores no momento em que tudo em volta está cinza, fosco… Ao vê-los floridos o deslumbramento é tal que a gente se pergunta: “De onde surgiu esse rosa tão perfeitamente róseo, esse branco tão lácteo, esse amarelo tão girassol?” E com essa estratégia de sedução o que ipês querem é multiplicar-se. Como? Fazendo brotar nos humanos o desejo de espalhá-los mais e mais. Diante da consumada beleza com que já nos seduziram, é claro que vamos querer mais deles florindo na paisagem, mormente (primeira vez que uso essa palavra) se for uma paisagem árida como a de Brasília nessa quadra do ano.

© Nota de canapé: Romance da jornalista Clara Arreguy.

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Caprichos e relaxos ©
Categoria: Literatura

É sempre assim: começa o ano e a primeira providência é fazer a colheita do que escrevi no ano anterior e que considero publicável. A colheita do que escrevi em 2012 resultou em pouco mais de meia centena de textos. Postando de três em três dias, e não pretendendo alterar essa periodicidade, eu precisaria ter colhido, no mínimo, 120 textos. E agora? A saída é escrever textos exclusivamente para o blog, prática antes reservada a situações especiais. Essa colheita módica revela uma verdade incômoda: em 2012 foi farta a produção de abobrinhas no meu quintal de inutilezas. E para o blog gosto de mandar textos em que capricho mais – sou exigente. Oscilando entre caprichos e relaxos, em 2012 o saldo pendeu para o relaxo, quero dizer, para o excesso de abobrinhas, para as brincadeiras de homenino, para o tom demasiado pessoal etc. Conclua o raro leitor: dos quase 200 textos escritos ao longo do ano, somente uma meia centena escapou do círculo de ordinariedade que é a minha marca registrada. Tá certo que alguma coisa escrita em 2012 já tinha ido parar no blog – duas dezenas, talvez –, o que em quase nada altera o saldo das ninharias de 2012. O fato concreto é: tenho de ir atrás da quota que falta para garantir as postagens de 2013. E vou ver se consigo, em 2013, pender mais para o capricho. Ou isso ou o blog corre o risco de passar por uma dieta textual rigorosa, não sendo implausível prenunciar-lhe a morte prematura. A sorte é que se trata de uma morte que a ninguém fará diferença.

© Nota de canapé: Livro de poemas do Paulo Leminski.

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