Deus-dará ©
Categoria: Literatura

No meio dos nossos caminhos tem sempre uma vida severina expondo-nos seu desamparo. Acontece a toda hora: nos restaurantes, nos supermercados, nos sinais, nas ruas, nos ônibus etc. É tanta gente errando desamparada que acabamos meio anestesiados diante da dor alheia. Há uns dias, no ônibus, fui atingido pelo soco de uma dor dessas irremediáveis. Um homem expunha seu drama, tão igual ao drama de outras tantas vidas ao deus-dará. O drama era compreensível pelo que se via, não pelo que se ouvia. O homem parecia já sem forças para, mais uma vez, falar da sua dor a ouvidos desatentos. Eu não conseguia entender nada do que ele dizia – e não era preciso. Tava na cara. E no pranto. Porque, já sem forças para falar, o homem chorava muito, um choro tão sentido quanto desesperançado. Fiz o que faria qualquer um diante de um homem com sua dor: dei-lhe algum dinheiro. O que lhe dei terá bastado para, no máximo, aliviar-lhe a dor da fome. E a dor da alma, aquela que só se alivia com afeto, acolhimento, esperança? Essa dor continuou intocada. E eu, tocado com tamanha dor, me perguntava: o que eu dei de mim mesmo àquele homem? Também não sei o que mais eu poderia fazer por ele. Mas sei que fiz quase nada. Em mim, a dor do homem doeu como dor intuída. Nele, o homem, a dor doía real, funda, concreta, sentida, visível, vivida até o último esgar. Ai!!

© Nota de canapé: Livro de crônicas da escritora Ana Miranda.

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Ruminações ©
Categoria: Literatura

“Hora de escrever o post do dia. E começam as ruminações: escrever sobre o quê? O que sobra de assunto para quem já escreveu sobre tudo e sobre nada? Vejamos: poderia escrever sobre as traições da memória, mas para isso eu precisaria contar com alguma acuidade de memória, o que não tenho mais. Tenho memória de alguns esquecimentos, mas os esquecimentos são muito maiores do que a memória que tenho deles. Falar em traições de memória daria uma bela página em branco. Poderia escrever sobre essa coisa brilhante que é a chuva, o tropical sol da liberdade, as horas nuas, a arquitetura do arco-íris, o sorriso do caos, o volume do silêncio, a máquina do mundo, a terceira margem do rio, a rota do indivíduo, a vida como ela é, o admirável mundo velho, as boas coisas da vida, a gramática expositiva do chão, o eterno Deus Mu dança, o tratado geral das grandezas do ínfimo, a estrutura da bolha de sabão, o presumível coração da América, o calor das coisas, o quieto animal da esquina, o casamento dos pequenos burgueses, o bêbado e a equilibrista, as várias pontas de uma estrela, as travessuras da menina má etc. Poderia escrever sobre os desvalidos que vivem ao deus-dará. Heureca! Vou escrever sobre um pedinte que atravessou o meu caminho com a sua dor desconsolada. Comecemos.”

(continua no dia 30/06/2013)

© Nota de canapé: Livro do poeta Donizete Galvão.

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