Sumidouro ©
Categoria: Literatura

A vida é um voraz sumidouro. Mal caímos dentro da vida e já começamos a gastá-la dentro de nós. E a gastamos com força e fome, como se seu destino fora durar para sempre. Gastando a (e gostando da) minha vida, acabo de entrar na casa dos cinqüenta anos. E já fechei atrás de mim a porta dos trinta anos de trabalho. Nem acredito. Já passei pelo ciclo da infância, da adolescência, da adultescência, da maturidade, e agora me encaminho para o ciclo da terceira infância. Falo em ciclo, mas melhor seria dizer círculo. E são círculos dentro de círculos. O círculo da terceira infância contém todos os outros. Estão todos dentro de mim. Ou eu dentro deles, em especial o da infância. Rompido o último círculo, destino final de todos nós, “adeus composição que um dia se chamou Tarlei Martins Ferreira” (apropriação descarada de um verso de Drummond). Digo isso sem morbidez nenhuma. Mesmo porque estou bem plantado (é o que sinto) no centro da vida, longe, portanto, da borda desse círculo do qual serei expulso – e que a inapelável expulsão venha o mais tarde possível. Não importa quão tarde saiamos desse sumidouro que é a vida, sairemos contra a vontade. É próprio da vida se gastar imprevidente. Ou de nós assim a gastarmos. Pelo menos comigo tem sido assim. Temo que, ao entrar no círculo da terceira infância, fique um pouco avaro no gastar a vida. Será? Que assim não seja!

© Nota de canapé: Livro da poeta Olga Savary.

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Compasso ©
Categoria: Música

Em compasso de admiração, assino embaixo desses versos do Gilberto Gil: “Meu caminho pelo mundo eu mesmo traço / Que a Bahia já me deu régua e compasso”. Mesmo assinando embaixo, o segundo verso poderia perder seu laivo bairrista. Assim: “Que a vida já me deu régua e compasso”. E assim vou no compasso da vida, um compasso ora lento, ora apressado. A vida dá o ritmo. E eu sigo no compasso, mesmo quando, às vezes, fico fora do compasso. Porque viver é isso: um passo a passo, um pouco a pouco, um devagar e sempre – até o compasso final. Vivemos em compasso de espera – seja do imediato, seja do distante. E chegamos a um e outro de igual modo: passo a passo. Viver é um passatempo, não no sentido que lhe dá o dicionário, mas no sentido literal de tempo que passa. No momento, estou em compasso de espera: de um livro meu já quase pronto, da alforria e da quizomba que se seguirá à alforria. Será? Mais que em compasso de espera, estou em compasso de ansiedade. Já passa da hora de eu dar início ao passo a passo da festa. Não será nenhuma festa de arromba – imagine! É só um tempo para todos, eu e meus amigos, ficarmos em compasso de muita alegria. É só isso. E estou a um passo disso. Se eu, claro, não perder o compasso do tempo, o que não é improvável.

© Nota de canapé: Parceria de Ângela Ro Rô e Ricardo Mac Cord.

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