A vida é bela ©
Categoria: Cinema

Toda viagem Brasília–Uberlândia costuma seguir os trilhos do esperado: o táxi, a rodoviária, o percurso, a parada (posto Ponte Alta), o lanche (uma pamonha assada), retomada da viagem, a chegada (duas da manhã), o táxi, a casa de minha mãe. É onde acaba a viagem que começa o que desejo contar. É tão pequeno o que tenho a contar que será preciso espichar as bordas do texto para que ele não fique curtinho demais. Falo do pequeno momento que sucede a minha chegada (depois do abraço na mãe, do banho, da comida esquentada pela mãe, da mãe voltar para a cama): é nesse momento breve que desfruto de um prazer sem preço. É o prazer egoísta e hedonista vindo da certeza de que, naquela hora, nada me perturbará. Entrego-me ao prazer da comida simples (arroz, feijão, carne de frango, molho de jiló, salada de tomate), ao prazer do silêncio, ao prazer de ouvir o motor da geladeira, de ouvir o som do garfo tocando o prato, de ouvir um galo cantando em algum quintal. Na noite escura estamos eu e o silêncio, aconchegados um ao outro como o filho no útero da mãe. A plenitude de prazer dura o tempo breve da refeição. Depois escovo os dentes, tomo um copo d’água, apago a luz e me deito à espera das ondas envolventes do sono. Naquele momento, tenho certeza de que sou o homem mais feliz do mundo. Uma felicidade que é puro despojamento, pura gratuidade. Antes de entrar no casulo do sono, um pensamento agradecido me visita: “A vida é bela!”. Depois que raia o dia, entro na rotina da casa: compras, queixas, providências etc. No entanto, nada me rouba aquela ilha de prazer dentro da noite silenciosa. Ilha só minha e que visito de tempos em tempos.

© Nota de canapé: Um filme do italiano Roberto Benigni em cuja inverossimilhança a gente embarca graças à criança que somos.

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Quem ri por último ri Millôr ©
Categoria: Literatura

(PSiu: Hoje faz um ano que Millôr se foi)

Millôr Fernandes dizia que todo homem nasce original e morre plágio. Subscrevendo-o por inteiro, acrescento que o homem não só morre plágio, mas vive plágio. Falo apenas por mim, mas esse é o tipo de coisa em que UM é igual a TODOS. Consciente de que deixei de ser original logo ao primeiro choro, cumpro a sina de ser cópia e de copiar o mais que posso. Hoje deu vontade de copiar umas frases do Millôr – e as copiarei sem aspas, como se minhas fossem. Cheguei, enfim, à idade da razão, aquela que nos permite fazer as maiores besteiras sem ficar preocupado. Razão devia servir só pra isso: pra nos dar razão. O que mais esperar do único animal que ri e, rindo, mostra o animal que é? Em certo momento ficou evidente que o homem evoluiu do macaco. Como é evidente, agora, que o homem está a caminho da sua ancestralidade primeva. Pareço pessimista? Pode ser. O pessimista é o único que está preparado para ser otimista quando seu pessimismo se confirma. Dito assim, sugiro que o mundo se divide entre os que dizem sim e os que dizem fim. Não, o mundo se divide entre os que encontram e os que nem sabe onde puseram. Estou no segundo time. Não dá pra decidir se a divisão está correta pela simples razão de que um rato não pode ser juiz na partilha de um queijo. Um rato faz qualquer coisa por um queijo. Muito mais faz um homem por dinheiro. O que o dinheiro faz pelo homem não é nada em comparação com o que homem faz por ele – ou por qualquer outra tentação. Aliás, não devemos nunca resistir às tentações: elas podem não voltar. Ah, como falo! E as pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades. Não tem problema. Eu jamais digo uma mentira que não possa provar. A diferença entre o mentiroso e a galinha é que o mentiroso cacareja mas não bota o ovo. Boto fé. E aproveito para botar o ponto final neste post!

© Nota de canapé: Título de uma ótima crônica do Antônio Prata. O trocadilho é perfeito, só não é muito preciso. É que o humor do Millôr é mais de fazer pensar do que de fazer rir. Mas quem é que se interessa por precisão?

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