Brava gente brasileira ©
Categoria: Literatura

No andar em que trabalho, somos servidos por dois copeiros. E digo de saída que o trabalho de um copeiro não é fácil. Sendo copeiro de auditores, mais difícil ainda. Somos umas sessenta pessoas no andar. É preciso servir água para todo mundo (natural para uns, gelada para outros), café duas vezes ao dia (com açúcar para uns, com adoçante para outros, sem açúcar para alguns). Servir água e café é a parte final do trabalho. Antes é preciso recolher as garrafas d’água e os copos, lavar tudo, repor as garrafas com os copos limpos. Depois é partir para fazer o primeiro café, lavar todas as xícaras assim que servida a primeira rodada, e fazer o segundo café. Servir o café demanda várias voltas à copa para reabastecer o bule. Para os servidos não importa nada: querem sempre um sorriso no rosto do copeiro. E não há atraso, por menor que seja, que não seja motivo de alguma reclamação. Apesar do baixo salário, das condições de trabalho, das eventuais reclamações que lhes dirigimos, nunca vi da parte dos copeiros nenhum sinal de queixa.

Estamos rodeados de gente assim. É uma brava gente com quem temos muito a aprender. Como admiro esses heróis anônimos que não se deixam sucumbir diante do visgo grosso das circunstâncias! Estão na vida para o que vier, e como vier. São heróis da mesma estirpe de um vendedor de caldo de cana que todo dia estaciona sua tralha perto da escola de que sou vizinho. E quando digo tralha não leia aí a menor intenção pejorativa. É um jeito carinhoso e adequado para nomear tudo o que o vendedor estaciona: o Passat velhíssimo de cor não identificável, a cana, a máquina de moer cana, a fritadeira de pastel, a estufa para o pastel, o isopor com gelo, a barraca, as mesas e cadeiras – isso é o de que me lembro. Chega por volta das sete da manhã – o mesmo horário em que estou saindo para o trabalho – acompanhado do que penso seja um filho. Às sete da noite, quando regresso, pai e filho estão recolhendo a tralha. Eu penso: que horas descansam?

Quisera poder dar um abraço nessa brava gente que tanto admiro. Fiquem estas palavras na conta de um abraço!

© Nota de canapé: Livro de crônicas de Márcio Moreira Alves. É livro do qual posso dizer: não li (ainda) e (já) gostei.

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Poltrona 27 ©
Categoria: Literatura

Foi numa viagem Brasília/Uberlândia. Instalado na poltrona 27, assisti embevecido a algumas cenas que rolaram nas poltronas 29, 30 e 34. Conto ao raro leitor.

Vem caminhando pelo corredor, cheia de bagagem de mão, uma mulher de uns trinta e poucos anos. O que primeiro ouço é ela dizendo: “Mamãe, cada coisa de uma vez” – e a filha não disfarça uma certa impaciência no tom de voz. Conhecendo bem a mãe que tenho, solidarizo-me de imediato com a filha. Até esse momento, “mamãe” não estava ao alcance do meu campo de visão. Assim que a filha começa a ajeitar a bagagem de mão, eis que surge “mamãe”, cabelinho pintado de loiro, toda alinhada… Vê-se logo que a única preocupação de “mamãe” é se acomodar na poltrona 34. A filha que cuide de tudo o mais. “Mamãe” põe uma sacola de mão aos pés da poltrona do lado. Quando a dona da poltrona chega, pensa que “mamãe” se mexe? Continua quietinha, até que a dona pergunta se aquela sacola é dela. “Mamãe” diz que sim – e só. Nem sinal de que pretende tirar a sacola do lugar – é como se a sacola fosse problema da filha, que tinha descido para cuidar de outras providências. Aí a dona da poltrona pergunta se pode tirar a sacola pra ela se acomodar. “Mamãe” consente. Em seguida “mamãe” conversa qualquer coisa com a dona da poltrona com o único propósito – é o que penso – de poder dizer que tem problema de osteoporose. E, com isso, justificar por que não tinha se mexido do lugar para tirar a sacola. A filha, já de volta, acomoda o que falta, o genro ajuda no ponto exato de reclinação da poltrona da sogra (o genro não viaja), a filha se acomoda na poltrona 30 e estamos prontos para seguir viagem. Daí a pouco a filha começa uma conversa com a senhora da poltrona 29. Na verdade, quem mais conversa é a senhora. O assunto entre as duas segue ininterrupto até a parada de Ponte Alta para um xixi, um lanche etc. Na retomada da viagem, o ônibus já dando ré, reparo que “mamãe” e a filha não estão nos lugares. Prontamente a senhora informa: “Ela tá com a mãe no banheiro. A mãe não desce do ônibus”. Vale dizer que mãe e filha estão a caminho de Campo Grande, no Mato Grosso. De lá, seguem viagem para não sei onde. Ah, pobre filha! O melhor de tudo aconteceu na segunda parte da viagem, logo que saímos de Ponte Alta, pouco mais de onze da noite. A senhora volta pro ônibus com um marmitex e o abre em plena viagem, servindo-se com gosto, não se importando de o ônibus estar às escuras. De repente percebo a filha se servindo do marmitex da senhora. E não era um servir-se só para não fazer desfeita à senhora. A filha se serve sem constrangimento e, se não me engano, devora toda a porção de batatas do marmitex. Achei a cena linda! Essa coisa que o brasileiro tem de estabelecer uma intimidade de irmãos em apenas quatro horas de viagem é de espantar qualquer um. Uma coisa é saber que o brasileiro tem essa capacidade. Outra coisa é ver tudo acontecendo na sua frente. Ah, juro que tive vontade de aplaudir a cena.

© Nota de canapé: Livro do mineiro Carlos Herculano Lopes.

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