A grande família ©
Categoria: Televisão



A cegonha me deixou numa família numerosa – falo da grande família; não da família imediata, que é pequena. Só de irmãos de minha mãe são nove – e só três deles ainda estão dentro do círculo do tempo. Apenas do ramo materno são quarenta e quatro os primos, alguns já habitando outras esferas. Durante a infância e adolescência o convívio com boa parte deles foi bem próximo. De modo que desde muito cedo a vivência da alteridade regeu a pauta do meu convívio. E eu considero isso de grande proveito. É essa vivência de alteridade que vai forjando, vai reforçando as vigas da nossa humanidade, vai modelando nossa tábua de valores. Menciono esse fato por causa da oportunidade de ter reencontrado boa parte dessa grande família no aniversário de um tio. Na festa eu tinha uma dupla missão: festejar com vontade sem esquecer de observar todos os lances. E foi o que fiz. Só não contei que me deixei levar pela emoção quando um primo mostrou umas fotos antigas que tinha conseguido. Quase todos os fotografados estão na parede da memória de todos nós. A família continua grande. Vem diminuindo na ponta que me antecede e crescendo, como é natural, na ponta que me sucede. Nem ouso contar quantos são os primos da segunda geração. Um punhado de primos da primeira geração está na foto acima. Quem se atreveria a um palpite de qual deles sou eu? Uma dica: meu distintivo principal era uma vasta cabeleira, o que me rendeu o apelido de “Índio”. Fácil, não? Pena que a baixa resolução da foto não ajude muito.

© Nota de canapé: Seriado de TV.

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Beleléu ©
Categoria: Música

Vivo dizendo que não tenho reputação nenhuma (e não tenho mesmo), o que não me impediu de mandar pro beleléu a nenhuma reputação que tenho. Assim: sempre ligo para uma amiga avisando que é hora de sairmos para o almoço. Se eu não ligo, é bem capaz de ela nem sair para almoçar. A ligação se resume a: “Estou descendo. Beijo!”. Tão no automático está o beijo que, tendo certo dia outro colega atendido o telefone na ausência da amiga, despedi-me dele com o “Beijo!” de praxe. Considero que o ato falho é bastante para derrubar até reputações inexistentes, como é o caso da minha. Desculpei-me com o colega – desculpas meramente protocolares diante de tamanho passo em falso. A sorte é que é um colega que conheço. Mesmo assim, é o tipo de acontecimento para o qual não há conserto e que deve ficar protegido por um pacto de silêncio – pacto que, ao divulgá-lo, estou quebrando. E desconfio que o colega também o fará. Não tem jeito: tudo o que pede mais segredo, acaba mais alardeado. Eu compreendo. Quando me pedem segredo de algo – depois do segredo contado, claro –, tenho essa resposta pronta: “Se nem você conseguiu guardá-lo, tem coragem de pedir isso de mim?” E assim fico autorizado a espalhar o segredo sem culpa nenhuma. Claro que estou brincando. Mas de fato é um desaforo que nos peçam segredo de algo que o segredador não conseguiu guardar para si. A escritora Nélida Piñon tem uma frase que diz assim: “O segredo perde suas propriedades quando conhece a voz humana”. Pra terminar, uma quadrinha lapidar do Quintana sobre o assunto: “Não te abras com teu amigo / Que ele um outro amigo tem. / E o amigo do teu amigo / Possui amigos também.”

© Nota de canapé: Canção do Itamar Assumpção.

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