Águas de dezembro ©
Categoria: Música

As águas de março fecham o verão – é o que atesta tanto o calendário quanto a conhecida canção de Tom Jobim. As águas de dezembro o abrem torrencialmente – é o que os brasilienses estamos testemunhando. Tem chovido quase todo dia. E são chuvas que eu, sem exagero algum, chamaria de amazônicas. Em dia de chuva, o trânsito de Brasília vira um nó indesatável. Sorte a minha de ser um pedestre e não ter de enfrentá-lo. Minha única preocupação é desviar-me das poças e de alguns motoristas que parecem ter gosto em presentear os pedestres com um banho de enxurrada. Já estou escolado. Difícil mesmo é proteger-se da conjugação chuva e vento, comum em Brasília. Aí não há guarda-chuva que dê jeito. E tenho um belo de um guarda-chuva. Demorei muito para encontrá-lo. Tem a vantagem de ser grande e facilmente transportável. Vem com uma capa que permite carregá-lo a tiracolo. Um luxo! Com o meu inseparável Fazzoletti (a marca do guarda-chuva), enfrento com galhardia as águas abundantes de dezembro. Quando chove muito pesado, recorro ao táxi. O inconveniente é a cara que o taxista faz assim que anuncio o destino. É um trajeto curtíssimo que eu, sensível, procuro compensar pagando sempre além do taxímetro. Ainda assim, não me livro de receber todas as vibrações ruins dirigidas aos, a priori, clientes-mala, já que o taxista só conhecerá meu lado sensível ao final da corrida. Todavia, acredito que a surpresa da generosidade consiga reverter os efeitos de alguma vibração ruim.

© Nota de canapé: Uma divertida parceria dos gaúchos Kleiton e Kledir.

(3)


 




Para fazer diferença ©
Categoria: Literatura

O melhor do Natal foi ter ele passado. Não se conclua daí que eu não gosto de Natal. Gosto muito de estar em família. Tivemos um Natal com uma simplicidade de presépio: a família reunida, mesa simples, ceia simples, e a alegria que se compraz na pura simplicidade. Venho aprendendo que a simplicidade faz diferença. Porque, para fazer diferença, não é preciso muita coisa. Basta a verdade da intenção. Aprendi mais: que pra fazer diferença o fundamental é não querer fazer diferença alguma. A diferença que vale, que fica, que conta, é aquela nascida da espontaneidade, a anos-luz de qualquer efeito calculado ou pretendido. Sinto que a diferença se aninha nos pequenos gestos: é um cartãozinho de Natal com pequena quantia para a diarista e para cada trabalhador do prédio, é um telefonema para o trabalhador que não está mais no prédio, é a contribuição para as caixinhas de Natal (já impliquei com elas. Hoje não mais) de todos os lugares que freqüento (e faço questão de ser generoso), é um abraço em cada um dos colegas e em cada um dos que nos servem no trabalho (Dona Maria, Piauí e Regivan), é um cartão de Natal (virtual) para todos os amigos, é participar de uma campanha de arrecadação de brinquedos para crianças carentes… Tudo isso que parece nascer para o esquecimento, tenho descoberto que tudo isso faz grande diferença. Vale lembrar Adélia: “O que a memória ama fica eterno”. A memória do coração não costuma falhar.

© Nota de canapé: Livro de ensaios de Luís Augusto Fischer.

(0)


 




© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress