Anseios crípticos ©
Categoria: Literatura

Apesar de eu ter dito que somos todos especialistas em leitura, há um mundo de textos escritos em linguagem críptica que mal soletro.

Eu não consigo ler o que as células estão escrevendo no secreto de mim.
Eu não consigo ler o que as galáxias estão escrevendo nas espirais de si mesmas.
Eu não consigo ler o que está escrito no meu inconsciente – e que me comanda.
Eu não consigo ler o que está escrito nas estrelas.
Eu não consigo ler o recado dos sonhos.
Eu não consigo ler a lógica das emoções.
Eu não consigo ler o sentimento de uma árvore.
Eu não consigo ler o pensamento de uma mesa.
Eu não consigo ler o alfabeto da matéria.
Eu não consigo ler o código da vida.
Eu não consigo ler a órbita dos planetas.
Eu não consigo ler a mecânica celeste.
Eu não consigo ler a física quântica.
Eu não consigo ler a origem do universo.
Eu não consigo ler a origem das espécies.
Eu não consigo ler o avesso das palavras.
Eu não consigo ler o percurso dos ventos.
Eu não consigo ler o ser da pedra.
Eu não consigo ler todo o ser que sou.
Eu não consigo ler para onde vai o planeta.
Eu não consigo ler até onde quero ir com esse texto.
Eu consigo ler que é preciso pôr um ponto final nesse texto sem nexo.
Eu consigo ler que o mais importante está por ler. E é por isso que nós, leitores, somos especialmente dotados de anseios crípticos.

© Nota de canapé: Livro de ensaios do grande poeta Paulo Leminski (1944 – 1989).

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Transleituras ©
Categoria: Literatura

Preciso repetir o que eu disse antes: “Está tudo escrito. É só ler com atenção”. A tecnologia da leitura é fabulosa. E tudo que é vivo não vive sem ler.

Eu leio a lua cheia que bóia nua no céu.
A lua lê quando é chegada a hora de comandar o movimento das marés.
A maré lê a velocidade dos ventos e a temperatura das águas do mar.
O mar lê o peixe que o navega.
O peixe lê que o mar não tá pra peixe.
O peixe lê que o homem o quer pescar.
O homem lê que tá todo mundo louco.
O louco lê a ordem do caos.
O caos lê a desordem das coisas.
As coisas lêem que a coisa tá preta.
O preto lê todas as outras cores.
As cores lêem o rastro da luz.
A luz lê que é preciso dar a luz.
A luz lê o escuro da morte.
A morte lê a vida.
A vida lê o desfile dos dias.
Os dias lêem as horas.
As horas lêem os minutos.
Os minutos lêem os segundos.
Os segundos lêem a eternidade.
A eternidade lê sem fim.
O fim lê o começo.
O começo lê que devagar se vai ao longe.
O longe lê o perto.
O perto lê que de perto ninguém é normal.
O normal lê que Deus está nas pequenas coisas.
Deus lê o homem e pergunta: Onde foi que Eu errei?
Eu (euzinho) leio que Deus é “uma superfície de gelo ancorada no riso” (Hilda Hilst).

Mas o que eu leio mesmo é que tudo são leituras. Ou melhor: transleituras.

© Nota de canapé: Livro de ensaios do grande poeta José Paulo Paes (1926 – 1998).

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