Tudo azul ©
Categoria: Música

Gosto de dizer que o céu de Brasília é de um azul celeste, celestial – e que o raro leitor releve a nenhuma originalidade do dito. A jornalista Conceição Freitas (cronista de mão cheia. Escreve para o Correio Braziliense. Algumas crônicas estão aqui) diz que o céu de Brasília é um mar de ponta-cabeça. Caetano diz numa letra: “Céu de Brasília / traço do arquiteto”. O céu de Brasília merece todas as loas – e luas. Ontem, por exemplo, uma imensa lua cheia boiava nua no céu. Aqui do mirante do Planalto, por onde se olhe há uma imensidão de azul. Sob a desmedida umbela de um céu todo azul, digo que “comigo vai tudo azul”. E não digo por dizer. Apesar da fieira de obrigações, das aporrinhações miúdas da vida de todos nós, sigo em sintonia com o azul. O curioso é saber que, valendo-me de uns rudimentos de óptica aprendidos alhures, o azul não está no céu – está em mim. Todas as cores estão no nosso olhar e não na coisa olhada. Não é interessante? Há todo um jogo entre a luz e a nossa retina que produz o mistério das cores. Caetano tem uma canção linda que se chama Rai das Cores. Nunca entendi por que Rai e não Rei. O refrão da canção pergunta: “Quais são as cores que são suas cores de predileção?” A minha é o azul. Pra terminar, estes versos do poema Quase, do Mário de Sá-Carneiro, poeta português contemporâneo de Fernando Pessoa: “Um pouco mais de sol – eu era brasa, / Um pouco mais de azul – eu era além. (…)”.

© Nota de canapé: Uma canção do Lulu Santos.

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Chamadas telefônicas ©
Categoria: Literatura

Não sei se são rabugens próprias da idade. O que sei é que não gosto de nenhuma das opções de toque de celular. E me refiro apenas às opções do próprio aparelho. Nem tomo conhecimento dos ringtones sem fim que se podem baixar no aparelho. No mundo dos ringtones tem bizarrice pra toda falta de gosto. Tem coaxar de sapo, tem canto de passarinho, tem galo cantando, boi berrando, bebê chorando, tem sirene de polícia, tem a música do plantão do Jornal Nacional, tem som de caixa registradora etc. E tem as músicas que também viram ringtones. Um sobrinho querido é chamado ao som de “Eu quero tchu / Eu quero tchá…”. Acho todos os ringtones chatos, até mesmo o que reproduz o toque das chamadas telefônicas de aparelhos fixos, o nostálgico “triiiimmmm”… A infinidade de opções é um campo aberto para as bizarrices. Meus ouvidos fatigados já ouviram de tudo. Ainda assim me espantei com o toque que era o de um filhotinho de cachorro ganindo. Estando eu num ônibus, ao ouvir os ganidos logo pensei num atropelamento ou em alguém maltratando um filhote. Era uma chamada telefônica. Não pude deixar de ouvir, e de deplorar, um pouco do que a mulher falou a quem ligou. Logo ao atender ela disse: “Você não liga pra mim, seu cachorro!”. Até que ela foi coerente na escolha do ringtone. E o cachorro que ligou devia ser pai do filhotinho que gania. Ai, minha nossa senhora do bom gosto, valei-me, que assim eu não agüento.

© Nota de canapé: Livro do escritor chileno Roberto Bolaño (1953 – 2003).

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