Admirável mundo velho! ©
Categoria: Literatura

Dia desses, ao deparar com o livro Admirável mundo velho!, tive uma daquelas “regressões proustianas e fatais” (Nelson Rodrigues). Lá estou, em 1982, tomando posse em certo banco estatal. Estava cheio de mim, afinal, em termos salariais, saíra de patinho feio e chegara a pavão. A primeira função foi carimbar “lotes” de documentos microfilmados – uma função nada nobre, mas o “régio” salário me recompunha a nobreza. Hoje tenho imensa saudade dos meus tempos de revisor de microfilmes, digitador, somador de cheques etc. Ah, a delícia das coisas menores – que ninguém vê!… Gosto tanto de bastidores, de invisibilidade! A vida profissional segue e acaba exigindo uma competência que a gente não tem, mas acreditam que a gente tem. E lá está você auditor ou coisa que o valha, cheio de pesadas responsabilidades, justo você que só queria trabalhos leves, feito aqueles de revisor de microfilmes etc., mas agora esperam de você relatórios, apontamentos de falhas, minúcias de processos gigantes, aí me pergunto: como sobrevivo? A verdade: ninguém está contente consigo mesmo, com as suas circunstâncias. Machado de Assis captou isso de maneira magistral. Está no poema que se chama Círculo vicioso e cujos versos finais são: “Por que não nasci eu um simples vaga-lume?”

© Nota de canapé: Livro do jornalista Alberto Villas.

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Estranha forma de vida ©
Categoria: Música

“O correr da vida embrulha tudo”, diz Guimarães Rosa. “A vida (…) é um embrulhar-se sem onde”, diz Fernando Pessoa. Desnecessário dizer que me sinto o mais embrulhado dos embrulhados. Pra que a gente se desembrulhe é preciso romper alguma coisa. No meu caso, precisaria resolver algumas pendências pra me sentir menos embrulhado. Onde ânimo pra isso? Além disso, mesmo embrulhado tenho grande liberdade de movimentos. E tá bom assim. Nem sei como me sentiria se ficasse de todo desembrulhado. Deve ser uma sensação estranha não ter nada pra (deixar de) resolver. O que me dá gosto de fazer certas coisas – escrever, por exemplo – é me ocupar pra não ter de pensar em pendências. Escrever é preciso. Resolver pendências, não. Ler é mais que preciso. Adiar pendências, idem. E o simples fato de estar escrevendo tanto, e lendo outro tanto, revela o tanto de pendências que venho prorrogando triunfalmente. O que vale é que mantenho a ilusão de estar sempre fazendo alguma coisa, não necessariamente o que é preciso. Como é que eu preenchia o meu tempo antes de inaugurar este puxadinho virtual? Posso afiançar que não o preenchia resolvendo pendências, na mesma medida em que posso afiançar que estava fazendo alguma coisa. Nada – principalmente. E fazer nada não é pra qualquer um.

© Nota de canapé: Um fado que foi sucesso na voz da fadista portuguesa Amália Rodrigues. Caetano Veloso também gravou.

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