O homem da quitinete de marfim ©
Categoria: Literatura

Há quem veja rompantes de narcisismo em algumas brincadeiras minhas. Penso que isso é a outra face de alguém que não se leva sério e não se dá a mínima importância. Pra fugir do reles, eu, o homem da quitinete de marfim, invento meus castelos, brinco de me dar importância. É entre alguns amigos muito próximos que gosto de cometer brincadeiras que podem ser lidas como sendo de autopromoção. Isso me diverte. Meu medo é que tomem a sério o que é pura boutade, cena, teatro… Gosto de me pôr máscaras. E corro o risco de esquecer de retirá-las, tão divertida é a brincadeira. Aí me vêm aqueles famosos versos de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: “Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, estava colada à cara”. Penso que esse gosto pelas máscaras tem a ver com a aguda consciência do que de fato sou: “um fulano (…), um mano qualquer” (Caetano Veloso). Comigo me desavenho, sempre. E vivo o dilema: “Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim” (Comigo me desavim, Sá de Miranda). Pra compensar essa prisão sem habeas corpus, invento-me, reinvento-me, multiplico-me. Não quero ser um ou dois… “Eu quero ser trezentos” (Mario de Andrade). Que venham todos!

© Nota de canapé: Livro de crônicas do Marcelo Mirisola. É um grande escritor (pra ele mesmo, o melhor de todos) mas eu, embora beba água de todo rio, prefiro banhar-me nas águas de outro tipo de literatura.

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O Antinarciso ©
Categoria: Literatura

Com o poema No meio do caminho, Drummond atirou uma pedra certeira na vidraça da poesia brasileira. Lá estão estes versos: “Jamais me esquecerei deste acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas”. Jamais me esquecerei da pedra que uma amiga atirou na minha vaidade: “Como será que Narciso se manifestará hoje?”. Claro que brinco. Os amigos podem tudo – e o fazem. E nesse fazer a leviandade está no topo. Não reclamo, acredite! Eu mesmo adoro cometer uma leviandade inocente. Não posso dizer que adoro do mesmo modo quando sou vítima dela. Os amigos, porque podem tudo, obrigam a gente a pensar em tudo que dizem sobre nós, sobretudo quando o que dizem contraria frontalmente o que pensamos de nós mesmos. Uma pessoa que não se dá a mínima importância ser chamada de Narciso dá o que pensar. Me sinto o antinarciso. Vale o que sinto? Deveria. Se o que sinto contraria a percepção dos meus espelhos, há um sinal evidente de que me traduzo muito mal. Há quem diga que não há tradução sem traição. Então é isso: sou vítima da minha própria traição. Não há de ser nada. Sigo em frente em busca de um espelho que me reflita tal qual sou – ou penso ser.

© Nota de canapé: Livro de Mario Sabino (nenhum parentesco com Fernando Sabino).

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