Traduzir-se ©
Categoria: Literatura

Quisera saber bem quem sou. O que sei é que sou alguém ancorado na dúvida. E meu duvidar constante “é uma petição de mais certeza”. (Guimarães Rosa).

Sei que uma parte de mim é toda equilíbrio, outra parte é permanente espanto.
Sei que uma parte de mim é búdica, outra parte é desesperada.
Sei que uma parte de mim ri além das próprias posses, outra parte chora até ficar com dó de si.
Sei que uma parte de mim se retrai, outra parte se joga.
Sei que uma parte de mim late a três por quatro, outra parte rumina silenciosa.
Sei que uma parte de mim deixa tudo pra depois, outra parte não quer fazer nada agora.
Sei que uma parte de mim tem muita calma, outra parte é desassossegada.
Sei que uma parte de mim já foi, outra parte está a caminho.
Sei que uma parte de mim sonha acordada, outra parte dorme pra sonhar.
Sei que uma parte de mim quer muito pouco, outra parte quer quase nada.
Sei que uma parte de mim tem asas, outra parte tem o pé no chão.
Sei que uma parte de mim corre em círculos, outra parte corre para trás.
Sei que uma parte de mim é traduzível, outra parte é indecifrável.
Sei que uma parte de mim adora gente, outra parte precisa de solidão.
Sei que uma parte de mim acredita, outra parte desconfia.
Sei que uma parte de mim trabalha, outra parte se atrapalha.
Sei que uma parte de mim escreve sem parar, outra parte não pára de escrever.
Sei que uma parte de mim pinta, outra parte borda.
Sei que uma parte de mim é só dúvida, a outra parte também.
Sei que uma parte de mim é só gratidão, a outra parte também.
Sei que uma parte de mim é o que não sei, a outra parte também.

© Nota de canapé: Lindíssimo e famoso poema do Ferreira Gullar. Pode ser ouvido aqui.

(0)


 




Salão de beleza ©
Categoria: Música

Vivo perdendo tempo. No entanto, o que me move é a pressa, a sensação de que não tenho tempo a perder. Para cortar o cabelo, por exemplo, só com hora marcada e sempre no mesmo salão. Da Silva é o cabeleireiro que me atende, embora no salão haja outros dois. Um deles, por sinal, é o Sr. Antônio Vicente, que calculo seja o dono. É um senhor de seus sessenta e poucos anos cujo rosto trai um certo cansaço do ofício de vida inteira. Sem abrir mão de algum bom humor, não é incomum que ele desfie algumas rabugens, próprias da idade e do cansaço. Tudo muito compreensível. O Sr. Antônio está, agora, com um problema na visão e não pode atender muitos clientes. Vale a pena contar uma cena engraçada envolvendo ele, uma mãe e uma filha. Quem ia cortar o cabelo era a filha de uns 9 anos e de farta e volumosa cabeleira. A mãe, zelosa, deu instruções não muito precisas ao Sr. Antônio. Diga-se que o Sr. Antônio é um hair designer com participação em evento de haute coiffure ocorrido em Paris, lá pelos anos 70, conforme atesta um certificado devidamente emoldurado na parede. Trata-se de profissional zeloso de sua reputação. Diante da imprecisão da mãe, o Sr. Antônio resolve propor a solução de corte que ele considera a única indicada para o problema que afligia a mãe: o volume do cabelo da filha. Mãe e filha se entreolham, inseguras. Para tranqüilizá-las, o Sr. Antônio procura numa revista uma ilustração aproximada do corte que pretende fazer. Mãe e filha se entreolham novamente. Nem a mãe nem a filha parecem aprovar a solução. Com o talento de hair designer posto em dúvida, é visível a contrariedade do Sr. Antônio. Mas a mãe é uma mulher delicada, fala de um jeito que não diminui o acerto da escolha do Sr. Antônio, antes destaca o conservadorismo dela, a mãe. O Sr. Antônio segue contrariado. E eu na cadeira ao lado assistindo a tudo com o enternecimento que as ocorrências miúdas provocam em mim. Por fim, o Sr. Antônio, não sem certa contrariedade, admite cortar o cabelo da garota conforme as orientações da mãe. Resignado, alega que se mãe e filha não estavam seguras, era melhor seguir-lhes a vontade, ainda que, a seu juízo, estivessem abrindo mão da solução perfeita por ele proposta. Nessa altura, o Da Silva, a quem não dou o menor trabalho – nenhuma novidade no corte, cabelo nada volumoso –, já havia terminado meu corte. Confesso que fiquei curioso do corte que o Sr. Antônio não pôde fazer.

© Nota de canapé: Uma canção do Zeca Baleiro.

(2)


 




© 2017 - ArteVida – A vida sem a arte é insustentável – Blog do Tarlei Martins - todos os direitos reservados
Design: V1 Digital - desenvolvido em WordPress