Ebulição da escrivatura ©
Categoria: Literatura

Ter descoberto em mim esse jeito para a escrita telegráfica resultou numa irrefreável ebulição da escrivatura, comprovada pelos textos que transbordam sem parar. Desde então, se vem a vontade de escrever, escrevo às cegas, às pressas, sem receita, sem plano, e desconfio que o resultado não seja lá muito apetecível. É o preço que pago. Antes, a vontade de escrever era mantida em banho-maria, à espera da melhor hora – que nunca chegava – de dar o ponto no texto. Agora, o que me passar pela cabeça, mesmo se for uma ideia sem pé nem cabeça, e eu pressentir que pode render qualquer porção de texto, jogo na panela da página e vejo o que vai dar. A receita tem funcionado e, graças a ela, sirvo quase todo dia o meu mexidinho de palavras para a degustação do raro leitor, não sendo pequeno o risco de indigestão, ainda que a porção seja sempre bem reduzida. A pergunta que cabe, e cuja resposta prefiro não saber, é: até quando os que me lêem (é preciso ser otimista) suportarão esse regime de ebulição da escrivatura?

© Nota de canapé: Belo trocadilho para uma antologia que traz o seguinte subtítulo: Treze poetas impossíveis.

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Nem pensar ©
Categoria: Música

Rubem Alves conta uma historinha que adoro. Um certo bicho, muito impressionado de a centopéia conseguir caminhar sem se atrapalhar com tantas pernas, resolveu perguntar a ela qual era o segredo. A centopéia, também espantada com o próprio feito, disse que não sabia, mas que ia passar a observar. Desde então, ela não conseguiu mais caminhar.

Depois de tanto escrever, pareço espantado com o meu próprio feito. Aí sou acometido de ligeiro pânico: sobre o que mais vou escrever? Vem-me a sensação de que não vou ter mais assunto, de que não vou conseguir escrever. Tal como o andar da centopéia, tenho de escrever sem pensar. Se penso, não escrevo. Acabo me perdendo entre as patas do bicho alfabeto, entre os buracos negros da memória. A pobre da centopéia – provida de tantas patas e sem conseguir andar; o pobre do escriba que sou – quilômetros de linhas escritas e sem conseguir uma linha mais. Tudo é possível. O natural seria: penso, logo escrevo. Por uma insondável mutação cognitiva, no meu caso o que vale é: penso, logo desisto. Por pensar tão pouco e escrever tanto, em vez do fundador “penso, logo existo”, o desnudador “não penso, logo eis isto”. Isto sou eu. Pensar? Nem pensar.

© Nota de canapé: Um sucesso da dupla Kleiton & Kledir.

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