Feliz ano velho ©
Categoria: Literatura

Quando todos estão de olhos voltados para o Ano Novo, eu me inclino, agradecido, para o ano que finda, certo de que tive (tivemos) um feliz ano velho. Gostamos tanto de saudar o novo – ainda uma promessa – que nos esquecemos de agradecer o velho – já uma certeza. Meu ano foi feliz por vários – e sempre os mesmos – motivos: pela saúde, pela paz, pela alegria, pela família, pelas amizades etc. Essa pequena amostra é bastante para garantir o sentimento de felicidade que permeou os dias findos – e lindos. Para além disso, há o fato de eu ter conseguido manter a fúria escrivã, perpetrando ao longo do ano posts a mancheias. É espantoso que alguém que se move sempre na zona da preguiça tenha conseguido tal proeza. Aqui cabe ressaltar que a fúria escrivã não teria ido longe se não fosse correspondida com a atenção de meia dúzia de leitores fiéis. Esse embate quase diário com a escrita, esse desnudamento de alma que o papel em branco propicia, esse desejo de diversão acima de tudo (culpa do incansável homenino que sou), esse gostinho raro de ser recolhido pelas palavras até que elas dêem uma resposta de mim (Manoel de Barros), devo tudo isso ao raro leitor. E sou mais que feliz por isso. Tanto que só isso bastaria para eu repetir, pleno de gratidão, que tive um feliz ano velho.

Acertadas as contas com o ano que se vai, é hora de saudar o ano que chega novinho em folha, pronto para nele tatuarmos nossas dores e delícias.

Um feliz 2013 para todos nós!

© Nota de canapé: Livro de grande sucesso nos anos 80. O autor é o Marcelo Rubens Paiva.

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A mão na massa ©
Categoria: Literatura

Eu venho de um chão em que a ajuda mútua sempre deu o tom. A família toda é de pôr a mão na massa. Um almoço em família conta com a ajuda de todos. E é tão bom se sentir participando! Lembro as pamonhadas que uma madrinha promovia em casa. E lembro também da matança de porcos. De tudo participávamos. Menciono isso só para contar um episódio que ilustra bem essa disposição de ajuda que é da índole de quem sabe por vivência própria que uma mão lava a outra. A gente – e agora falo da índole do nosso povo – é de se envolver. Manhã de sábado, eu estava num ônibus a caminho do café da manhã. Numa parada, dois adolescentes precisavam entrar no ônibus com uma tábua de madeira um pouco comprida demais. Tentam de um jeito, tentam de outro, e nada da tábua entrar. Éramos poucos passageiros, mas via-se em todos, se não a iniciativa da ajuda, pelo menos uma visível preocupação com a dificuldade dos adolescentes. Eu, notoriamente sem habilidade para tarefas da espécie, preferi ficar quieto, na torcida para o bom desfecho do intento dos adolescentes. No meio dos poucos passageiros, um mais expedito acabou achando o jeito de fazer a tábua entrar. O moço despachado se comportou como um sabichão, meio que deplorando a falta de jeito dos adolescentes. Antipatizei com ele. Seguimos viagem. Umas paradas adiante, hora dos adolescentes descerem. Mesma dificuldade com a tábua. Aí o despachado agiu mais uma vez, com sucesso. Quando os adolescentes saíram, ele não se furtou de comentar a inabilidade dos jovens, deplorando que não soubessem repetir a solução dele para a entrada da tábua. Antipatizei mais ainda, me sentindo pessoalmente atingido na minha falta de jeito. No fim das contas, gostei mais da disposição de ajuda que vi nos demais passageiros do que da ajuda efetiva de um único passageiro.

© Nota de canapé: Livro da querida Marina Colasanti.

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