No fim dá certo ©
Categoria: Literatura

 

Cada vez acredito mais nesta frase: “Viver é especializar-se no erro” (Maria Esther Maciel). Errar é humano, demasiado humano. O acerto, na rota de qualquer indivíduo, é um acaso estatístico. Nascemos para errar. Apesar dessa sina, e de fazer a minha parte exemplarmente, do que dá notícia os tantos malditos que venho perpetrando, apesar disso trago em mim a mais profunda vontade de acertar. Ainda assim, não me livro de seguir errando triunfalmente.

A natureza criou o mecanismo da seleção natural para aperfeiçoar seus frutos. O homem humano – pequeno, falho, frágil – submete-se a uma espécie de seleção emocional para tentar aprimorar-se. Nas palavras do mais que humano Guimarães Rosa, “é preciso sentir até tirar as cascas da alma”.

Não é que eu goste de errar. No entanto, sei que o erro que não desejei cometer vai esculpir o acerto que não calculei. No erro presente pode estar o futuro acerto. Errar é a sina dos viventes. Acertar é um desvio. De desvio em desvio, vou errando até o fim. No fim dá certo. Ou melhor: no fim, quem sabe, acerto.

 

© Nota de canapé: Livro do Fernando Sabino (1923 / 2004).

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Mania de explicação ©
Categoria: Literatura

Não é que eu tenha mania de explicação, mas deu vontade de uns escurecimentos acerca dos neologismos do post anterior. Tudo para aumentar a tempiratura do que (pa)lavrei:

- Pensageiro é do moçambicano Mia Couto. Na minha leitura, denomina alguém que pensa de passagem, um pensamento passageiro. Isso é a minha cara.

- Serelépido: meu mesmo. Inventei-o (ou copei, agora não sei) no dia em que, tendo sofrido um perrengue de véspera (aeroporto / embarque para Sampa / check-in / vôo encerrado / correria / atendente insolente / patadas de parte a parte etc.), acordei no sábado mais que serelepe, ou seja, serelépido.

- Tortografia é do Paulo Leminski. Em tempos de desacordo ortográfico, me pareceu perfeito e imperdível.

- Manusgrito: Leminski de novo. Fala (grita) por si.

- Obgesto: Leminski. Pela vizinhança com objeto, sugere um gesto mais concreto, portanto identificável. “Obgesto não identificado” é porque eu gosto de nadar contra a corrente – “só pra exercitar”.

- Nadifúndio é do Manoel de Barros, o maior dos nadifundiários.

- Arquívoco: mais Leminski. Digo de mim que sou um arquivista implacável. E como só cometo equívocos, meus arquivos não passam de arquívocos.

- Minimental: meu mesmo. Para funcionar bem, ele precisaria estar junto da palavra de que é o avesso: monumental. Essa oposição não fica imediatamente clara. O que se lê de imediato é algo como mente pequena.

- Inutensílio: Manoel de Barros. Amo tudo que é inútil.

- Ensimesmudo: Guimarães Rosa. O neologismo (não) fala por si.

- Opóstolo: Leminski. Me permita ser óbvio: o oposto de apóstolo.

- Insensatisfeito: Leminski. Ninguém mais que eu se satisfaz com a própria insensatez.

- Desencontrário: Leminski. Irmão gêmeo do opóstolo. Não basta o desencontro. É preciso ainda ser contrário. Cumpro a sina.

- Náugrafo: Leminski. Minha leitura: navegar pela escrita. É o que mais faço.

- Desaforismo: não sei de quem, mas é perfeito para o que venho praticando.

- Naufrágil: Sérgio Vilas-Boas. A nossa sina: navegar por nossas fragilidades tentando não afundar.

- Lixeratura: Caetano Veloso dos tempos do Pasquim.

- Hematombo: Leminski. O tombo causa hematoma. Simplifiquemos para hematombo.

- Abensonhado: Mia Couto, ele mesmo abençoado de sonhos.

- Leituratura: meu mesmo. Acho que a leitura que mais importa é a leitura de literatura. Daí, leituratura.

- Minifesto: Leminski. Opõe-se a manifesto, aquilo que vem carregado de palavras de ordem. Minifesto é para quem tem quase nada a dizer.

- Têxtase: de um poeta – não lembro o nome. Misturar texto e êxtase é uma sacada genial. “Por que que eu não pensei nisso antes?”.

- Deleitor: meu. Mistura deleite e leitor. E ler, para mim, só com deleite.

- Kamiquase: Leminski. Perfeito para um tímido que se atreve sem deixar de se ater.

- Zen-vergonha: Aldir Blanc. Dá título a uma belíssima parceria com o compositor Guinga.

© Nota de canapé: Livro da escritora e roteirista Adriana Falcão.

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