Confissões de adolescentes ©
Categoria: Teatro

 

Dia desses, no ônibus a caminho da Livraria Cultura, algazarra alegre de um bando de adolescentes. Sou capturado por quatro deles, os que mais falam: três garotos (um bem branco, um branco, um negro) e uma garota (nissei, não sei bem). É gostoso ver o quanto a vida pulsa neles com aquela vibração espontânea que os adultos já perdemos. O arco da conversa – animada, apaixonada – inclui genética, xenofobia, mangá, judô, viagens, Budapeste e muita coisa mais que não registrei. Fico completamente tomado por cenas assim, em que a vida vibra plena, grávida do novo, do indescoberto… Dava gosto colher o que eles viviam ali, ao vivo, entregues ao exercício da descoberta do outro, de si, do mundo, de tudo… A vida que vibra neles irradia para fora do “círculo de giz narcísico que os contém” (Affonso Romano de Sant’anna) e contagia todos ao redor. Os que estamos de fora temos de nos contentar com o que eles, perdulários, entornam para além de si mesmos. Não há lugar para adultos nesse círculo. Eles, os jovens, são o centro, o sol… E faz bem receber os raios de vida que eles emanam com espantosa prodigalidade. “É a vida. É bonita, é bonita e é bonita” (Gonzaguinha).

 

© Nota de canapé: Peça de teatro de enorme sucesso nos anos 90, com direção de Domingos de Oliveira. Depois virou livro e série de TV.

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A descoberta do mundo ©
Categoria: Literatura

 

Logo que selei meu destino ao lado dos números, em busca do sustento físico, as letras entraram na minha vida e delas é que tem vindo o imprescindível sustento metafísico. Quando tudo começou, tinha eu 19 anos, indóceis e indômitos. A partir daí assumi o meu triste calvário de bancário ao mesmo tempo que comecei a trilhar o caminho da leitura. Os livros descortinaram para mim um mundo insuspeitado. Posso dizer, sem medo do exagero, que os livros me proporcionaram uma verdadeira descoberta do mundo – do mundo recolhido pela palavra, que é o que importa. Eu devo tudo ao amplo raio ordenador da leitura. Acho fundamental a vivência de alteridade que a literatura propicia, ainda mais num tempo que consagra o individualismo, o narcisismo etc. Nesses quase trinta anos de profissional dos números e amador das letras, venho administrando como posso o desequilíbrio em favor dos números. Dia virá, e logo, em que as letras serão as donas do pedaço. De todo modo, serei grato aos números. Eles é que financiarão o ócio de todas as futuras horas vagas, a maioria delas, espero, em companhia das letras. Assim seja!

 

© Nota de canapé: Um dos meus livros preferidos de Clarice Lispector (1920 / 1977). Reúne crônicas escritas de 1967 a 1973. Minha edição (há uma edição bem mais compacta) tem generosas setecentas e tantas páginas.

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