Aqui e agora ©
Categoria: Música

Verso de uma canção do Gil: “O melhor lugar do mundo é aqui e agora”. O presente é um presente (e um lugar-comum – mas não importa), é o nosso tesouro, é a nossa única posse… Somos mestres em deixar que o presente perca a sua condição de maravilha ou de possibilidade de… Penso assim: na situação mais adversa há sempre uma fresta por onde pode entrar o beija-flor da alegria… E tudo vem de significar as nossas vidas com o máximo de sentido. Lembro-me de períodos muito ruins da minha vida. Ainda assim, achava um jeito de pôr uma flor onde só parecia haver espinhos. Um exemplo: mãe lavando roupa pra fora, eu trabalhando num escritório, almoço requentado e às pressas – eis um cenário com nenhuma graça. A graça que eu punha nesse cenário era comprar uma laranjinha (ou din-din nos dias de hoje) de tamarindo (o sabor preferido) para acompanhar o almoço que eu mesmo esquentava. Pode parecer bobagem, mas isso me dava uma enorme alegria. E posso inventariar outros tantos exemplos desse quilate. Quando a tristeza é senhora, eu sempre acho um jeito de iluminar um desvão qualquer da minha vida com o sol da alegria. O médico e psiquiatra austríaco Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração, relatou sua experiência no livro Em busca de sentido (entre outros), convertendo aquela experiência no processo terapêutico chamado “Logoterapia”. O grande motor de sua terapia é a conquista da liberdade interior, a força que permite a permanente construção de sentidos. Uma vida sem sentido não faz o menor sentido.

© Nota de canapé: Canção do Gilberto Gil. A gravação original está no LP Refavela.

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Baú de espantos ©
Categoria: Literatura

Nunca fui aluno exemplar, mas também nunca deixei de me dedicar minimamente. Houve um tempo em que eu tinha facilidade para o aprendizado. Hoje tenho incrível facilidade para o esquecimento. Naquele tempo, às vezes um mínimo de dedicação era suficiente para eu me destacar. E não vou negar que eu tinha um quê de competitivo: queria me alinhar aos melhores. Embora aluno relapso, tinha excelente desempenho – façanha tão fácil quanto fácil era o nível de ensino. Lembro um episódio do 1º ano do curso Técnico em Contabilidade. Tinha eu indóceis 15 anos. Por alguma arruaça que a turma tinha protagonizado, lá veio o diretor, Eduardo, dar-nos um sermão. Reduziu-nos todos a nada: irresponsáveis, indisciplinados, desordeiros etc., etc., etc. E para fechar o sermão, fez questão de dizer que, naquela turma, não havia ninguém capaz de um desempenho de que a escola pudesse se orgulhar – no que pareciam estar todos de acordo –, acrescentando ao sermão a frase que cobriu de espanto meus infatigados olhos adolescentes: ninguém era capaz, com uma única exceção. A exceção, acredite, era eu, inteiramente tomado pelo espanto. Embora aquela inesperada frase tenha me atirado do chão ao céu, eu não me sentia digno daquela distinção. E às vezes o elogio tem efeitos perversos: eu tinha de corresponder, em alguma medida, àquela aposta em mim, tão gratuita quanto descabida. Não sei dizer se correspondi. Sei que carreguei aquele invisível triunfo vida afora e sempre que sentia a inteligência claudicar agarrava-me a ele. Depois veio o tempo irremediável de uma inteligência que já não responde a mais nada. No entanto, aquele triunfo adolescente foi para o estojo das coisas para nunca imêmores – e que me lembre, nunca o havia aberto para ninguém. Ainda hoje é esse longínquo triunfo que me consola das derrapagens, cada vez mais frequentes, da inteligência. “É a vida. É bonita, é bonita e é bonita”.

 

© Nota de canapé: Livro do Mario Quintana (1906 / 1994).

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