Rilke shake ©
Categoria: Literatura

Li há muitos anos o livro Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke, tradução de Cecília Meireles. É desses livros fundamentais. Minha leitura (completa) de Rilke não passou desse livro, embora se trate de poeta reputadíssimo em cuja obra pontificam as Elegias de Duíno. Tenho uma relação complicada com a poesia. Não sei se estou demasiado contaminado pela prosa, mas o fato é que meu código de acesso à poesia está cada vez mais restrito. Claro que tenho os meus poetas amados, idolatrados, salve, salve! Tem sido raro abrir-me para novos poetas. Quando se trata de poesia traduzida, aí a coisa complica mais. Essa, talvez, a razão por que li pouquíssimos poetas traduzidos. A personalidade de Rilke me interessa muito. Dele comprei (e não li) o livro O testamento. Há pouco comprei o Cartas do poeta sobre a vida (li um pouco). Nesse último leio que o inventário de cartas do poeta beira assombrosos onze mil itens. O que escrevo e publico aqui no blog (e que nem cartas são, mas bilhetes apressados e breves), e que me assombra, está a caminho dos três dígitos. Que distante estou dos ultrajantes cinco dígitos do poeta! Chego lá? Leio também que Rilke gostava de um estilo de vida incompatível com seus ganhos. Gostava, por exemplo, de hospedar-se em castelos emprestados de amigos para ali escrever e inscrever-se no futuro. E conseguiu. Eu gosto de saber do que está por trás do escrito. Gosto de saber dos andaimes imperfeitos que deram origem a edifícios literários indestrutíveis.

 

© Nota de canapé: Livro de estreia, acho, da poeta Angélica Freitas. O título é um achado, não?

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Ensinamento ©
Categoria: Literatura

“Eu sou só um bicho carente de carinho” – é o que diz Rita Lee numa canção. Desnecessário dizer que o “eu” acima é um “eu” coletivo – somos todos bichos carentes. Eu não tenho muito do que me queixar. Sou bem acarinhado. Sinto que devia exercer mais a contrapartida de dar carinho. As expansões de afeto não são muito o meu forte – a timidez mata no nascedouro muitos desses gestos. Acho que tenho melhorado. Lembro aquela famosa Oração de São Francisco de Assis: “Fazei com que eu procure mais consolar que ser consolado, mais compreender que ser compreendido, mais amar que ser amado”. E eu poderia completar: “Fazei com que eu procure mais acarinhar que ser acarinhado”. Sei que o carinho pode prescindir da efusão e ficar confinado aos gestos discretos. É o que pratico – acho. E ninguém falou tão bem desse tipo de carinho quanto Adélia Prado no poema Ensinamento. Transcrevo: “Minha mãe achava estudo / a coisa mais fina do mundo. / Não é. / A coisa mais fina do mundo é o sentimento. / Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, / ela falou comigo: / ‘Coitado, até essa hora no serviço pesado’. / Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente. / Não me falou em amor. / Essa palavra de luxo”.

 

© Nota de canapé: Se o raro teleitor gostou desse poema, pode curtir mais Adélia aqui.

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