Ao vencedor as batatas ©
Categoria: Literatura

Nelson Rodrigues, de mirada sempre certeira, dizia que, na vida, o mais importante é o fracasso. Eu concordo. E ao concordar, mantendo coerência com o jeito gauche, chapliniano que me caracteriza, caio em outra verdade do Nelson: “A coerência é, no mínimo, suspeita.” Quem me vê, pensa: “Eis aí uma pessoa vitoriosa.” E sou, mas sem nenhum heroísmo, sem a postura olímpica e arrogante dos vencedores, daqueles que vão sempre de sucesso em sucesso. Mal sabem os que me veem que nos desvãos disso que enxergam como vitória há uma porção de fracassos – que são o que tenho de melhor. Minha humanidade cresce com a memória deles. Eles é que me lembram, sempre: “Afofa a terra, Tarlei.” Ouvi isso da atriz Denise Fraga numa palestra no CCBB. Afofar a terra eu entendi como sendo a atitude necessária para quebrar a crosta com que nos deixamos endurecer. Quero ter a terra sempre fofa. É por isso, aliás, pelo que há de pungente lição de humildade, que me comovo profundamente com pequeno trecho de um poema de Carlos Drummond de Andrade em homenagem a Manuel Bandeira. Drummond inventaria algumas situações de desconforto na vida de Bandeira (fila de pagamento do Tesouro, fila do Instituto Félix Pacheco, fila do ônibus para Copacabana) e comove-se de ver tão grande poeta ”cumprindo sem revolta / sem amargura / o estatuto civil da pobreza.” Acho isso lindo!

 

© Nota de canapé: Livro de ensaios sobre Machado de Assis, de autoria de Roberto Schwarz, grande estudioso de Machado. Do mesmo Schwarz e sobre o mesmo Machado há ainda o Um mestre na periferia do capitalismo.

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Resmungos ©
Categoria: Literatura

Apesar das feições cândidas sempre afiveladas ao rosto, tenho cá minhas implicâncias. Uma delas tem a ver com o desempenho linguístico do nosso ex-presidente Lula. Como linguista amador, acolho de bom grado o falar menos culto. A diversidade me atrai em qualquer instância. Há quem insista em rotular de erro o que a ciência da língua há muito batizou de variação linguística. O que incomodava na fala do ex-presidente era a excessiva repetição, além dos vários cacoetes. Os cacoetes, aliás, é que mais me irritavam. Não aguentava mais ouvir “ou seja”, “para que a gente possa” e o famigerado “nunca antes na história deste país”. Certo dia ouvia no rádio o programa Café com o presidente. Numa certa altura ele faz um comentário qualquer do tipo: “Para que o brasileiro possa ter mais arroz, feijão, ou seja (sic), farinha, carne no prato…”. Ah, não dá! Marcos Bagno, escritor, linguista e professor da Universidade de Brasília, já cuidou de destrinchar o preconceito linguístico (este, aliás, o título de um de seus livros) que nos assola. Quero crer que a minha implicância com o desempenho linguístico do ex-presidente não seja fruto de preconceito. Fica aquela sensação de que para falar ao povo o bom mesmo é a repetição, é a muleta verbal, é o cacoete, é o lugar-comum, é o clichê… Será? Mas veja (outro cacoete do ex-presidente): não suportava a empáfia com que falava o FHC. E dele não se poderá dizer que falava mal. Quem entende o ser humano?

 

© Nota de canapé: Livro de crônicas do poeta Ferreira Gullar.

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