A menina dança ©
Categoria: Música

Tenho um jeito de ser meio encaramujado, meio encorujado… Isso significa que tenho hábitos recolhidos, quase invisíveis… A prerrogativa da quase invisibilidade, da discrição absoluta, faz de mim alguém muito observador. Na volta para casa, a pé, passo pelo Shopping Conjunto Nacional, o primeiro da cidade. Lá acontece todos os dias o evento “Um piano ao cair da noite”. E foi lá que vi a “menina” que dança. A “menina” de que falo deve ter uns 70 anos, está sempre sozinha, está sempre com umas sacolas, e sempre a encontro dançando… E dançando põe no rosto o mais contente dos sorrisos… Fico cogitando: para que mundos maravilhosos a música e a dança a transportam para ter no rosto aquele sorriso!? Dia desses, ao passar por ela – que dançava sozinha, como sempre –, temi ser tirado pra dançar. E se acontecesse? Não podia recusar jamais. Talvez seu maior sonho seja este: ser tirada pra dançar. Outro dia a flagrei numa traição inocente. Em vez do piano ao cair da noite, foi atraída pela música de uns sanfoneiros que tocavam na entrada do shopping. Era a única que dançava, sorridente e sozinha. Tenho pena dessa senhora cujo nome não sei, que vem não sei de onde, com suas sacolas, com sua vontade de dançar, com o seu sorriso… Reparei que as pernas (região do tornozelo) estão um pouco escurecidas. Deve ser problema de circulação. Reparei também que as costas estão bastante encurvadas. Mas, quando dança, esses aparentes achaques não são bastantes para apagar do rosto o mais feliz dos sorrisos. Palmas para ela!

 

© Nota de canapé: Um antigo sucesso dos Novos Baianos. Veja aqui.

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Banalogias ©
Categoria: Literatura

Causou um certo tititi o livro O culto do amador, escrito por Andrew Keen, um outrora empreendedor do Vale do Silício que atualmente publica artigos sobre mídia, cultura e tecnologia. O alvo do livro é a web 2.0. A tese é de que a pirataria digital e o narcisismo desenfreado (do tipo: não quero saber de notícia; eu sou a notícia) estão destruindo nossa economia, cultura e valores. Acho tudo um pouco apocalíptico pro meu gosto. A verdade é que paira mesmo uma certa inconsequência no mundo on-line. Mas isso são tendências, desvios que a nossa sensibilidade vai, assim acredito, corrigindo aos poucos. Milênios de civilização ainda não conseguiram extirpar de todo nosso instinto bárbaro. Outros milênios são precisos. Mesmo assim, não deixa de ser desolador assistir à apoteose da mediocridade. O amadorismo é o dono do pedaço. A idade mídia em que vivemos consagra o medíocre, o raso, o que não tem mérito nenhum a não ser o fato de tornar-se visível. Daí que o céu do ciberespaço está cada vez mais inundado de zilhões de blogs e companhia (Twitter, Orkut, Facebook, YouTube, MySpace etc)… Ah! pobre idade mídia que, ao contrário do que se pensa, tem a sua quota de obscurantismo (que vem pelo excesso de estímulos) e lembra a sua prima distante, a idade média. Olhando bem, a Internet é, como dizia Paulo Francis, um repositório de inutilidades. É muito joio e quase nenhum trigo. E se a lei da seleção natural prevalecer no meio digital, o pouco trigo é capaz de não sobreviver. Prefiro não acreditar nisso. Não, apocalipse never!

 

© Nota de canapé: Livro do ensaísta Francisco Bosco. O título brinca com o famoso Mitologias, do Roland Barthes.

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