Umbilical ©
Categoria: Literatura

Sou muito ligado ao meu irmão e à minha irmã. Com o meu irmão, Leandro, tenho uma relação que posso chamar, sem exagero, de umbilical. Fui eu quem cuidou dele e essa circunstância desenhada pela necessidade acabou nos ligando para além da condição de apenas irmãos. Era mais que isso. Primeiro assumi o papel de quase mãe: era de mim que vinha o cuidado imediato, enquanto nossa mãe lavava e passava roupa em casas de família. E o cuidado de que falo era o cuidado possível vindo de alguém com apenas 11 anos. Depois foi a vez de me investir do papel de quase pai: tendo nosso pai saído de casa, era eu a presença masculina em que ele podia se mirar; era eu o pai possível numa realidade toda ela feita de impossibilidades. Em meio a tanta impossibilidade, o amor: profundo, largo, irrestrito… Meu irmão cresceu, se rebelou, se fechou em si, bateu cabeça, caiu, levantou – e a nossa relação, que nunca deixou de ser umbilical, se esgarçou um pouco. Os desvios tantos acabaram desenhando o caminho da reaproximação. Meu irmão, embora às vezes saia dos trilhos da razão, acima de tudo é um homem de bom coração. Além de irmão amoroso, é um filho amoroso, é um tio amoroso, é um pai mais que amoroso… Nossa relação, umbilical sempre, hoje é feita daquele silêncio de quem entende sem precisar perguntar; daquela compreensão de quem quer acolher sem julgar; daquele desvelo de quem quer cuidar sem invadir; é feita daquele amor quase sem palavras…

Meu irmão faz hoje 38 anos. Para ele, todo o meu amor, assim, sem mais palavras…

© Nota de canapé: Conto do escritor João Anzanello Carrascoza que está no livro Dias raros. É um dos mais belos contos que já li, narrado em “duas” primeiras pessoas. As vozes de mãe e filho se alternam ao longo do conto, mas a mudança de narrador acontece de uma frase para outra. O efeito é emocionante e dá bem a medida de uma relação verdadeiramente umbilical.

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O bicho alfabeto ©
Categoria: Literatura

Indo na contramão da tecnolatria desenfreada, digo que manuscrever, para mim, é “a mais avançada das mais avançadas das tecnologias” (Caetano Veloso). Pode haver gesto mais simples e, ao mesmo tempo, mais sofisticado? Eu fico embasbacado. E o mais assombroso é que a tecnologia da escrita está assentada, toda ela, nas míseras 23 (agora 26) patas do nosso bicho alfabeto. Com essa franciscana economia de meios se consegue dizer tudo que se queira. Inventar um equivalente gráfico para o som me parece a realização máxima da inteligência humana. E para produzir esse equivalente gráfico bastam os franciscanos lápis e papel. Não é fantástico? A expressão fônica é volátil por excelência. A expressão gráfica possui índices de perenidade. O gráfico tem em si a possibilidade reversa de converter-se em fônico. O fônico, se não o recolhe a escrita ou a gravação audiovisual, perde-se para sempre.

 

© Nota de canapé: Lindíssimo poema do curitibano Paulo Leminski (1944-1989). O poema está no livro La vie em close e pode ser lido aqui.

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