Guardador ©
Categoria: Literatura

Confesso que, à medida que jogo na rede os fios que desfio, mais difícil vai ficando a tarefa de tecer outros fios para a rede. Não é falta de assunto: os assuntos (fios) são os de sempre. Minha vocação tecelã ressente-se da eterna repetição, da ausência de cores mais vivas no bordado, da estreita perspectiva das linhas escritas… Embora a insatisfação, sigo pintando e bordando as minhas historinhas abensonhadas (neologismo que colhi no Mia Couto). Sou o primeiro a saber que só se pode dar o que se tem. Não passo de um guardador dos fiozinhos apanhados no tear da vida – a fantástica vida se vivendo em nós e ao redor de nós (isso é de Clarice Lispector. Lindo, né?). Se eu acaso juntasse esses fios todos, que venho desfiando um a um, dia a dia, e os emendasse todos de uma vez, teria já um imenso tapete feito de nonadas.

© Nota de canapé: Livro do escritor João Antônio (1937 / 1996).

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Essencial ©
Categoria: Música

A curiosidade em mim, que é grande, não tem a contrapartida do interesse por estudar, pesquisar, mergulhar no que quer que seja. Sou um indisciplinado nato. Gosto de me deixar levar a esmo, gosto de passear pelos assuntos com a inconstância de um beija-flor. Mesmo quando o assunto é a literatura, a grande paixão, não sofro a tentação do estudo, da pesquisa, preferindo antes (con)vivê-la . E se é assim com a mais que amada literatura, que dizer de outros assuntos que as circunstâncias acabam impondo à minha gasta e parca inteligência? Desinteresse total. Assim tem sido com eventuais oportunidades que surgem na minha vida profissional. Tento (juro!) me esforçar, faço planos de estudos, junto material, faço promessas sinceras de me dedicar minimamente – simplesmente não dá, está além das minhas forças. A sorte é que, embora o desejo de ser aprovado provoque umas coceirinhas na vaidade, a possibilidade da não-aprovação não me deixa nem um pouquinho triste. Eu tenho mais o que desfazer. Houve um tempo em que eu gostava de mirar os exemplos de sucesso. Emulava os vitoriosos. Agora minha atenção vai toda para os que não conseguem algum intento. E me consolo: se fulano, que se esforçou e se dedicou, não conseguiu… E volto ao berço esplêndido do desinteresse, sem descuidar do essencial. Pra minha sorte, o essencial passa muito, muito longe de tudo isso. Eu só quero o essencial.

 

© Nota de canapé: Linda canção da cantora e compositora Joyce Moreno.

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