José ©
Categoria: Literatura

 

“Lá se nos foi Saramago para a última palavra, a só pronunciável de corpo inteiro”. O verso que abre o post é do poeta Affonso Romano de Sant’anna e foi escrito por ocasião da morte do mestre Aurélio. Não resisti à tentação de, com a devida licença, me apropriar dele. É verso que vale para todo aquele que é tomado de paixão irrestrita pela vida e pela palavra.

E agora? Estamos sem José, sem sua palavra inconformada, sem sua lucidez desencantada… O lançamento de A viagem do elefante, o penúltimo livro, revelou-o muito debilitado, muito magro… Assustei-me. A dedicatória do livro (“A Pilar, que não deixou que eu morresse”) induz a pensar que Pilar conseguiu, com o desvelo que a caracteriza, uma intermitência da morte. Não por muito tempo – que a indesejada é implacável no seu mister. Autor de vasta obra desde Levantado do chão, apostando sempre n’A consistência dos sonhos1, chegou ao Nobel em 1998, o primeiro e único da última Flor do Lácio. Ensaio sobre a cegueira é o livro de maior impacto; Memorial do convento, o livro que o projetou mundialmente. Contudo, o livro As pequenas memórias me enternece profundamente. Há trechos que leio com uma insistente neblina nos olhos.

Lá se foi Saramago habitar de corpo inteiro a última palavra. Aqui ficamos nós, depositários do seu legado de inquietação e inconformismo diante dos movimentos do mundo. E agora?

1 Título dado a uma importante exposição sobre a vida e obra de Saramago.          

 

© Nota de canapé: Um dos mais conhecidos poemas de Drummond, está no livro José e outros. Está, também, na Antologia Poética (Ed. Record) organizada pelo próprio Drummond e cuja primeira edição é de 1962.

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