O homem que matou o escritor ©
Categoria: Literatura

 

Caiu na rede a notícia da morte do escritor Wilson Bueno. Uma morte cercada de mistério e que logo ficará submersa para dar hora e vez a alguma outra tragédia. De modo que dificilmente se saberá o porquê da violência. De certo mesmo só o espanto e o lamento. O homem que matou o escritor, interrompendo-o com uma faca (Manoel de Barros, o poeta, conta do seu espanto quando, menino, viu um homem interrompido por uma faca), cortou uma brilhante trajetória ficcional, uma das mais consistentes vocações criadoras. Tive oportunidade de ver o Wilson Bueno na Flip de 2005. Não gostei tanto da persona do escritor, o que não me impede de admirar seus vôos de imaginação, seus arranjos de linguagem altamente depurados. Pelas ressonâncias rosianas, considero Meu tio Roseno, a cavalo um livro fabuloso. Mas há Mar Paraguayo, elogiadíssimo pela crítica, há A copista de Kafka, um dos mais recentes, há Amar-te a ti mesmo nem sei se com carícias… Milton Hatoum disse numa palestra que os escritores são guardadores de vidas. Quando morre um escritor, a vida perde um guardião insubstituível. É o caso de dizer: se morre um escritor, morrem várias vidas.

  

© Nota de canapé: Livro de estréia do escritor Sérgio Rodrigues. Está na rede há anos com o respeitado Todoprosa.

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Que rei sou eu? ©
Categoria: Televisão

Por alguma razão insondável, dispus-me à tarefa de inventariar as palavras abrigadas no meu nome, Tarlei. Fiquei espantado com o que descobri: um nome de apenas 6 letras desdobrou-se em 21 outras palavras, boa parte delas caras ao meu coração. De posse da descoberta, tentei alinhavar uma espécie de autorretrato a partir dessas palavras (em azul). Eis o que consegui:

“Que rei sou eu, cabe perguntar? Por certo, um rei vagabundo, sem eira nem beira, longe de qualquer majestade e que nunca há de se sentir o tal. Um rei humílimo fiel ao ofício encantado de ler para ser. Um rei tirânico que decretou para si só uma lei: seguir sempre em linha reta rumo à beleza. Um rei sonhador para quem o real é tudo aquilo que rompe as paredes do lar e vaza para o oceano da ficção. Um rei cativo da arte e da vida, unidas desde sempre por uma teia invisível e poderosa. Um rei tecelão que puxa do tear da memória fios de letra em busca de palavras que o definam. Um rei devoto que deseja ter sempre onde praticar a liturgia diária da leitura, não importa se no papel ou se na tela. Um rei vira-lata (ou vira-letras?) que adora latir por escrito. Um rei tímido mas que, se lhe dão trela, é capaz de ir longe, feito estivesse a bordo de um iate singrando o mar sem fim da imaginação. Um rei lavrador, fazendeiro do ar (dá-lhe Drummond!), em cujo quintal há sempre uma leira pronta para receber a semente da palavra e de onde espera, quem sabe, colher palavras a mancheias, alimento para a vida inteira. Um rei paciente que deseja ceder o menos possível à tentação da ira. Um rei saltimbanco que deseja ceder o mais possível à sedução da lira. Ah, quem dera eu fosse esse rei que desenhei!”.

© Nota de canapé: Telenovela de enorme sucesso do saudoso Cassiano Gabus Mendes, exibida em 1989, sob direção geral de Jorge Fernando.

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