Bonitinha, mas ordinária ©
Categoria: Teatro

Li em algum lugar que o bom texto deve ser como a minissaia: curto, justo e provocante. Sou curto de imaginação e, em conseqüência, meu texto é curto. Justo? Acho que não. Adoro cometer uma leviandade inocente. Provocante? Se algum texto meu conseguir pôr um riso nos lábios ou uma nuvem nos olhos de algum leitor, o que mais eu quereria provocar? O que sei mesmo é que minha escrita pode até ser bonitinha, mas é pra lá de ordinária. É escrita sem pedigree, vira-lata a mais não poder. É escrita que nasce do chão do cotidiano – nele está o osso a que me agarro. É escrita que vive de sobras – as sobras da vida que vou recolhendo pelo caminho. Talvez o raro leitor sinta um tom de desapreço na forma de avaliar o que me sai da lavra. E se engana. Tenho o maior apreço pelo miúdo, pelo que não tem gala nenhuma. Minha intenção é apenas delimitar o chão em que me movo, o chão que me apraz lavrar. Não se trata de querer menos, querer o menor. Trata-se, isto sim, de reconhecer o espaço em que melhor me movo, de fixar o meu tamanho. Não se pode dar mais do que se tem. O meu material vem do ordinário da vida – da minha vida e da vida ao meu redor. A boniteza que sempre enxergo nesse material vem do meu olhar. Nunca deixo de estar disponível para o encantamento. Há encanto em todo canto. É só não deixar o olhar perder o poder de se encantar. Quer saber? Minha escrita não quer ser justa, provocante. Quer ser apenas – vá lá! – bonitinha. E ordinária. Mais não quero. Nem posso.

© Nota de canapé: Peça do extraordinário Nelson Rodrigues (1923 -1980).

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Mire veja ©
Categoria: Teatro

“(…) Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas (…)” (Guimarães Rosa). É por isso que, ainda que você mire bem, pouco poderá ser visto dos muitos que estão na foto, passados quase quarenta anos. Meu olhar é privilegiado porque estou na foto (6) e posso, portanto, rever o passado e confrontá-lo com o presente, revelando em breves traços o presente de cada um que está na foto. A foto reúne, além de mim e dos irmãos (16 e 17), mais dezessete primos. Reconheço o local da foto (morávamos todos em Buriti Alegre. E reconheço mais: a rua e o muro ao fundo), o porquê dela (aniversário da minha irmã), quem a tirou (o Pedro retratista) e quem mandou tirar (a madrinha Maria, irmã mais velha de minha mãe). Se você acha que tenho primos demais, revelo que na foto não está nem metade deles. Começo por revelar a prima Rosa (1), há anos vivendo em Cuiabá. É mãe de duas filhas e avó de dois netos – filhos da filha mais velha. Excelente anfitriã, é na casa dela que os irmãos (2, 5, 7, 13, 14 e 18) gostam de se reunir, e é também onde os parentes em visita costumam se hospedar. Vive para a família. Carlos (2) – que os da família chamamos Cairo –, dois filhos (ambos já graduados pela Ufu), um neto. Gerente de banco à beira da aposentadoria, vive em Carmo do Paranaíba, tendo perambulado muito de cidade em cidade. Algumas delas: Itumbiara, Goianésia, Matutina, Bambuí, Pitangui, Três Marias e Paracatu. Ótimo filho (é o mais velho dos irmãos vivos), ótimo pai e ótimo avô. Juerço (3), cinco filhos (sendo três avulsos), um casal de netos. É policial reformado. Vive em Brasília desde que se mudou de Buriti. Tem fama de Dom Juan, mas sinto que não se encontrou em nenhuma das tantas aventuras. Valdir (4), cinco filhos, é possível que já tenha netos. Nunca saiu de Buriti. Vive de cultivar e vender hortaliças. Vilmar (5), um filho adotivo. Viveu um tempo em Cuiabá e há um bom tempo vive em Tiros. É dono de uma lotérica. Tem saúde frágil, mas não se deixa abater. Admiro seu espírito de luta. Eu (6), de quem nada preciso falar, tanto venho me espalhando por aqui. Romar (7), dois filhos (um já estudante de engenharia elétrica na UFMT), vive em Cuiabá. É mecânico de caminhões. Religioso, é bastante ativo nas iniciativas da paróquia que freqüenta. Marilda (8), três filhos (o mais velho acabou de se casar, o do meio já é casado e o caçula é quase casado), ainda sem netos. Nos tempos de escola, tinha excelente desempenho – mas teve de parar cedo com os estudos. É servidora pública municipal há não muito tempo. Vive em Uberlândia. Luzia (9), dois filhos, viveu um tempo em Uberlândia, tendo retornado a Buriti há algum tempo. Trabalha num frigorífico da cidade. Marluce (10), uma filha (graduanda em Psicologia na UFU), vive em Uberlândia. Separada há muitos anos, assumiu cedo o encargo de cuidar (e muito bem) de si e da filha. Trabalha há anos numa construtora – e sei que é excelente profissional. Lúcia (11), um casal de filhos, vive em Buriti. Não sei se trabalha fora. Luceine (12), três filhos (dois homens e uma mulher), depois de anos vivendo em Redenção, no Pará (desde que se casou), voltou para Buriti. O tempo de vida no Pará permitiu ao casal constituir uma bela situação financeira – e a casa que construíram em Buriti é prova disso. Romilda (13), um filho, vive em Cuiabá. É dona do maior alto astral e cultiva sem reserva os prazeres da vida – e isso inclui a vida boêmia. Eldo (14), dois filhos (um deles já graduado pela UFMT), vive em Cuiabá. É mecânico de caminhões. Admiro-o pela façanha de, com o pouco rendimento com que sempre pôde contar, ter construído uma belíssima casa – que levou anos para ficar pronta. Luciene (15) – que os da família chamamos Neném –, duas filhas, vive em Brasília. Até onde sei, é apenas (e o “apenas” não é desapreço, por favor) dona de casa. Nora Nei (16), minha irmã, duas filhas lindas (uma recém-graduada em Ciência da Computação, a outra graduanda em Ciências Contábeis, ambas pela UFU), vive em Uberlândia. Tem grande experiência no ramo de crédito e cobrança, mas migrou para a área de vendas há um certo tempo. Vem construindo com o meu cunhado a mais bonita das parcerias que conheço. Leandro (17), meu irmão, um casal lindo de filhos, vive em Uberlândia. Serralheiro de profissão, é reputado como um dos melhores na sua especialidade. Admiro isso. Se você reparar bem, vai notar nele um jeitinho marrento: continua assim até hoje. Edson (18), sem filhos, vive em Cuiabá. É mecânico de caminhões. Marli (19), um filho, vive em Buriti. Trabalha no mesmo escritório de contabilidade em que já trabalhei – hoje de propriedade do irmão Delmar, ausente na foto. Gilmar (20) – que os da família chamamos Betinho –, três filhos (sendo duas mulheres e um homem), vive em Goiânia. A filha mais velha é estudante de Medicina na UFU. O que o Betinho tem de pequeno na estatura, tem de grande na determinação. É servidor público estadual (Secretaria de Gestão e Planejamento) e federal (professor da UFG na área de Engenharia de Software – acho). Reparando bem, você verá que ele está de pé no chão. E devo dizer que descalços é como ficávamos todos quase o tempo todo. E se na foto a maioria aparece calçada, terá sido somente porque a ocasião exigia uma mínima solenidade.

As poucas linhas que dediquei a cada fotografado revelam quase nada deles. Não faz mal. O que importa revelar é o meu olhar mais que amoroso para todos eles.

© Nota de canapé: Livre adaptação teatral da Cia. do Feijão para o livro Eles eram muitos cavalos, do Luiz Ruffato.

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