Um sonho a mais ©
Categoria: Televisão

Inteira razão tem o Nelson Rodrigues: “O homem não nasceu para ser grande. O mínimo de grandeza já o desumaniza. (…) Na vida, o mais importante é o fracasso”. Isso para dizer que, sem me sentir um fracassado, carrego na bagagem alguns fracassos triunfais. Tudo é uma questão de ponto de vista. De um ponto de vista objetivo, não há que negar os fracassos. Do meu ponto de vista, e sem negar-lhes a evidência objetiva, vejo meus fracassos como parte das aventuras quixotescas que tanto gosto de protagonizar. Sou um sonhador. E “se você pode sonhar, você pode fazer” (Walt Disney). Quintana disse assim da mentira: “Mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”. Eu digo assim do sonho: “Sonho é uma realidade que ainda não se lembrou de acontecer”. Meu mais recente fracasso, e não custa reiterar que se trata de fracasso apenas do ponto de vista objetivo, foi a aventura de publicar um livro. Quixote por natureza, não medi esforços para dar asas a esse sonho. Cuidei de tudo. Cerquei de caprichos o meu sonho. Mas era sonho fadado ao fracasso. Publiquei por uma editora pequena cujo maior empenho é viabilizar sonhos – e como sou grato por isso!! Sendo editora pequena, o esquema de distribuição é nenhum. Escolhi, de saída, o caminho da quase completa invisibilidade. Não vá o raro leitor concluir daí que, houvesse distribuição adequada, eu teria assegurado outro destino que não o da invisibilidade. Não é nada disso. Apenas haveria certeza de que o livro se deu a ver. Nenhuma queixa, no entanto. A experiência serviu para eu concluir: não se ingressa no sistema literário assim, de forma marginal, ao sabor dos lances da sorte. Não! Se se quer, de fato, conquistar um lugar nesse meio, o caminho tem de ser profissional. É o que vou tentar. Se eu não tentar, o não-ingresso já está garantido. A possibilidade de um “sim” virá – ou não – de eu tentar. De modo que o Quixote que há em mim agora cavalga mais esse sonho. E vamos combinar: um sonho a mais não faz mal.

© Nota de canapé: Telenovela de Daniel Más exibida em meados de 1985. Pelo que me lembro, a novela foi um retumbante fracasso.

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Espelho mágico ©
Categoria: Televisão

Dezoito de setembro de 1950: o dia da primeira transmissão da pioneira TV Tupi, o dia em que a TV entrou na vida dos brasileiros – poucos brasileiros, diga-se. Por um bom tempo, a TV foi artigo de luxo. Na minha vida mesmo a TV só chegou ali pelos oito, nove anos. Chegou na minha vida, mas não na nossa casa. Na nossa casa ela só entrou perto dos meus dezoito anos. Antes disso, cheguei à TV pela janela de alguns vizinhos. E porque os vizinhos eram acolhedores, não demorou para que eu chegasse à sala de suas casas. Assim por muito tempo – nove anos na vida de quem tem nove anos é uma quase eternidade. Não condição de televizinho, era preciso selecionar bem o programa preferido para importunar o mínimo possível o dono daquela caixa encantada. A preferência maior era por novelas, mas tudo seduzia naquele espelho mágico. As novelas eram acompanhadas com devoção quase religiosa. E algumas cenas provocavam na assistência incontidas vibrações de entusiasmo ou de torcida pelo herói ou heroína. Vale dizer que a assistência era, em geral, numerosa, pois congregava vários outros vizinhos.

Daquele início até hoje, a popularidade da TV nunca deixou de crescer. E hoje a qualidade técnica da nossa televisão é imbatível. Da qualidade artística, no entanto, não se pode dizer o mesmo. Ainda assim, o espelho mágico não deixa de encantar. Quanta emoção já vivi, quanta beleza já vi emoldurada naquela tela!! Incontáveis novelas, séries, minisséries, especiais, programas musicais, programas de auditório etc. Aqui é o país da televisão. Dizendo melhor: aqui é o paraíso da televisão. Tamanha é a presença da televisão na vida do brasileiro, e tamanha a sua influência, que há quem se dedique a estudar o fenômeno denominado telemorfose, uma conseqüência do poder que tem a TV de moldar/ditar comportamentos. Fala-se muito do baixo nível da nossa TV. E já se falava bem antes dos dias atuais. Lá nos idos de 68, o nível da TV já era pauta das discussões de intelectuais. Nelson Rodrigues, que gostava de televisão, saiu em sua defesa. Com a mais límpida e casta objetividade, ele dizia que o nível das nossas TVs era muito relativo. E completava, certeiro: “Acusamos o nível das emissoras e ninguém fala do nosso. Há uma reciprocidade de níveis. A televisão é assim porque o telespectador também o é. Uma coisa depende da outra e as duas se justificam e se absolvem”. Não há o que objetar. Afinal, a TV tem de espelhar o espetáculo do mundo e nele há miséria e maravilha. Mas eu, que continuo gostando de TV, bem que gostaria que aquele espelho mágico espalhasse mais o luxo da beleza. Nós precisamos. E repito com Adélia Prado: “Beleza não é luxo. É necessidade!”. Quem sabe um dia?!

© Nota de canapé: Telenovela de Lauro César Muniz exibida em 1977. A inovação que a obra propunha (uma novela dentro da novela) não foi bem aceita pelo telespectador.

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