Cronicamente inviável ©
Categoria: Cinema

Perguntado sobre o porquê de não se aventurar na prosa, o poeta Manoel de Barros respondeu: “Eu escrevo o rumor das palavras. Não tenho proporção para episódios”. Se me fosse perguntado o porquê de eu não me aventurar na prosa de ficção, responderia: “Escrevo o rumor da vida. Não tenho proporção para a invenção”. Sou colado demais à vida real. Não consigo transpor para a moldura da ficção os ruídos que capto da vida. A bem da verdade nem sofri a tentação do exercício na vereda da ficção, ciente de ser cronicamente inviável para o ofício. Acabei achando meu lugar perfeito no terreno baldio da crônica. De saída já me agrada sabê-la considerada gênero menor. É que o cronista não é de fazer gênero. A crônica é gênero sem fronteiras e goza o privilégio de transitar por todos os gêneros. É, assim, uma espécie de transgênero. Variada por excelência, nela tudo cabe. A crônica não faz distinção de assunto. Tudo é bem-vindo. E o cronista é esse beija-flor de vôo inconstante que pousa aqui e ali, atraído por tudo que traga promessa de mel. O cronista é um comentarista sempre disponível para o incessante desfile do espetáculo da vida. E seus comentários vêm vestidos com o traje do entretenimento. Pode ser um traje lúdico, lírico, anedótico, poético, irônico, metafísico, futurístico, anacrônico etc., etc., etc. O cronista é um estilista hábil em fazer qualquer traje cair muito bem na crônica. E como gosta o cronista de brincar com palavras!! O cronista é um brincador. / Brinca tão completamente / Que seu dom alegrador / Esconde a dor da gente.

© Nota de canapé: Filme dirigido por Sérgio Bianchi.

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Desmundo ©
Categoria: Cinema, Literatura

Ouvi do escritor Gonçalo M. Tavares, em palestra na última Bienal do Livro de Brasília, a fábula do aprendiz de feiticeiro aplicada ao capitalismo. A fábula, aliás, se aplica a todos os grandes sistemas que regem nossas vidas, sejam econômicos, políticos, tecnológicos, religiosos ou de qualquer outra natureza. É no domínio da economia e da tecnologia, muito especialmente, que mais se percebe a ação dos aprendizes de feiticeiro. Como se sabe, o feiticeiro ensina ao aprendiz a palavra mágica que põe algo em movimento, não sem antes advertir ao aprendiz que não a pronuncie. O aprendiz, mesmo sabendo que lhe falta a palavra mágica que faça parar o movimento, resolve pronunciá-la, e dá início ao movimento. Uma vez a coisa posta em movimento, ficamos para sempre reféns dela e de seus desdobramentos, numa espécie de moto-contínuo. Não parece o retrato perfeito do sistema capitalista? É um sistema insustentável por excelência, mas como freá-lo? Mesma coisa quando se olha para os lados da tecnologia: quem conseguirá deter o avanço das máquinas sobre o mundo, vasto mundo? Como desfazer esses feitiços? Porque se não os desfizermos, se eles prosseguirem na sua espiral sem fim, o mundo entrará em colapso. Os sistemas que estão no volante do planeta são cada vez mais totalizantes. E todo grande sistema está sujeito à desordem entrópica que poderá aniquilá-lo. Como está tudo interligado, o que aniquila um sistema, aniquila também tudo o mais que vive em função dele. Sem querer ser apocalíptico, não parece que estamos a caminho de um desmundo? Se é verdade que muita coisa está fora da ordem, nem por isso deixo de acreditar nas “diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final” (Caetano).

© Nota de canapé: Livro de Ana Miranda. O diretor Alain Fresnot o levou para o cinema. No filme se vê a barbárie dos tempos da colonização portuguesa. Nos tempos de hoje, não perdemos a condição de colonizados – nem de bárbaros.

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