21
mai/12
Polaróides urbanas ©
O grande poeta Manoel de Barros se diz um apanhador de desperdícios. Eu digo de mim que sou um apanhador de flagrantes. Meus olhos são duas polaróides prontas a captar o efêmero.
Por conta da homenagem a uma colega recém-aposentada, tive de ir a um shopping aonde quase nunca vou. Feita a compra, fui para a parada de ônibus. Passava pouco das 18 horas e lá havia três crianças uniformizadas – duas meninas e um menino. Sou péssimo de cálculo de idade, mas penso que elas tinham não mais que dez anos. Todas traziam no olhar aquela curiosidade acesa que se encanta com qualquer mínimo acontecimento. E conversavam, e riam, e brincavam… Entretidos entre si, não deixaram de perceber um professor passando pela parada. E uma das garotas disse, animada e surpresa: “Oi, professor fulano!”. Mais conversas, mais risos… De repente o garoto se lembra que só tinha um passe escolar. E pelo desenrolar da conversa, descobri que iam todos para a rodoviária e de lá pegariam outro ônibus. O bacana foi a desenvoltura do garoto ao decidir ir a pé para a rodoviária – uns 20 minutos de caminhada. Antes, houve toda uma combinação de onde iriam se encontrar na rodoviária, já que o garoto deixaria a mochila com as garotas. Todo animado com a aventura da caminhada, o garoto saiu correndo a passos velozes como se corresse para uma missão muito importante – e não tive dúvidas de que fosse. Fiquei enternecido com essa cena tão rápida. E me lembrei desses versos de uma canção do Caetano: “Eu vi um menino correndo / Eu vi o tempo / Brincando ao redor do caminho daquele menino”. O meu olhar para aquele menino era um olhar para o menino que fui – e senti saudades.
© Nota de canapé: Filme escrito e dirigido por Miguel Falabella.
18
mai/12
Pequenas epifanias ©
(PSiu: Escrito há um ano por ocasião da presença do escritor Alcione Araújo em um evento no CCBB Brasília.)
Está em andamento no CCBB o projeto “Escritores brasileiros”. Todo mês há um escritor convidado, que vem acompanhado de um ator ou atriz que lê trechos de sua obra. Ontem foi o dia do Alcione Araújo, cronista dos melhores, além de romancista, dramaturgo, roteirista de cinema e TV, que veio acompanhado da atriz Eliane Giardini. Tenho um xodó por crônica. Li os três livros de crônicas do Alcione, sendo o mais recente o Cala boca e me beija. O encontro fluiu tranqüilo, gostoso, aconchegante… Eu adorei a fala do Alcione – humana, acolhedora, envolvente… Eu adorei as crônicas lidas pela atriz Eliane Giardini. Éramos uma platéia pequena. E rimos muito. E nos descontraímos. Noite perfeita, mesmo eu tendo de abrir mão do caldo no restaurante Green’s. Alcione falou, Eliane leu, aí chegou a hora das perguntas. Embora eu seja muito curioso, não gosto de perguntar nada, fico inibido, acho que não tenho nada de relevante para perguntar. Mesmo assim, pedi o microfone. E não fiz pergunta alguma. Apenas comentei do meu prazer de ouvi-lo, eu que já tinha vivido o prazer de tê-lo lido e me emocionado com várias crônicas. Aproveitei para mencionar a crônica que mais me emocionava – e emociona. Choro toda vez que a releio. A crônica se chama Mestre e é uma comovida homenagem a um professor de Português apaixonado pela língua, pela literatura… Esse professor é atropelado por uma cegueira no meio do ano letivo. Alcione era seu aluno. Quando terminei de dizer o quanto essa crônica me emocionava, Alcione já estava chorando, emocionado. Eu fiquei sem graça – não tinha essa intenção. Só queria comunicar minha emoção de leitor. Eliane Giardini, apoiada pelo Alcione, logo se interessou por ler a crônica. Eu sugeri que talvez não fosse o caso, estávamos num clima tão alegre, e a crônica era daquelas de rasgar o coração. Alcione insistiu, ainda emocionado. Resultado: Eliane leu, lágrimas escorriam pelo rosto do Alcione, eu também me emocionei (bem menos do que quando releio sozinho), a platéia ouviu em silêncio… E, por essas conjunções inexplicáveis, aconteceu ali uma pequena epifania. Do mesmo modo que a turma de alunos assistia, em silencioso pranto, à magnífica aula do Prof. Luiz Gonzaga, o que se assistiu e se viveu, ali, no CCBB, foi a mesma emoção silenciosa, a magia da palavra nos transportando, eternos alunos, para aquela sala de aula, corações abertos para a vida feita palavra – vida que se desdobrou à nossa frente na magnífica crônica Mestre. Que noite!
© Nota de canapé: Belíssima crônica do Caio Fernando Abreu (1948 – 1996). Com o título original de Pequenas epifanias alterado para Dois ou três almoços, uns silêncios, pode ser lida aqui. A crônica Mestre está anexada a este post.



